sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

AS PRAIAS DE AGNÈS

Antonio Carlos Egypto


AS PRAIAS DE AGNÈS (Les Plages d’Agnès). França, 2008. Direção: Agnès Varda. Documentário. 100 min.

Agnès Varda, nascida em Bruxelas em 1928, onde passou sua infância, é uma cineasta considerada precursora do famoso movimento da nouvelle vague do cinema francês. Seu filme “La Pointe Courte”, de 1954, é geralmente citado nesse sentido. Nos anos 1960, dois filmes marcaram a direção cinematográfica de Varda como verdadeiras obras-primas: “Cleo das 5 às 7”, de 1962, e “As Duas Faces da Felicidade”, de 1965.

Agnès alternou seu trabalho no cinema entre a ficção e o documentário e, casada com o famoso cineasta Jacques Demy, dedicou-se à memória da obra que ele realizou, a partir da morte dele, em 1990. De Jacques Demy, vale a pena lembrar-se dos encantadores “Os Guarda-Chuvas do Amor”, de 1960, “Pele de Asno”, de 1971, além de “Lola, a Flor Proibida”, de 1960, entre outros.

Agnès Varda e Demy viveram uma história de amor admirável e isso está muito evidente neste magnífico “As Praias de Agnès”, que está sendo exibido nos cinemas com atraso em relação à sua produção. Mas não é só isso o que se destaca. A figura de Varda e sua trajetória pelo mundo da arte e do comportamento humano e político é notável.

Ela se retrata nesse documentário, justapondo suas crenças, preocupações, o seu jeito de ser e de lidar consigo mesma e com o mundo, à fotografia que marcou sua vida, aos seus filmes, aos seus familiares e às suas praias. Segundo ela, “Se você abrir uma pessoa, irá achar paisagens. Se me abrir, irá achar praias”. E belas imagens ligadas a praias concretizam essa ideia. A começar pelos grandes espelhos que ela põe para contracenar com o mar, a areia e as pessoas, criando logo de início um impacto visual belíssimo.

Fotos maravilhosas mostram que sua atuação profissional como fotógrafa, antes mesmo do cinema ou junto com ele, foi excepcional. O uso das fotos para ir revelando uma trajetória de vida e de atuação marcantes no mundo é perfeito.



O jeito doce dessa senhora, diretora de cinema, revela ao mesmo tempo sua determinação revolucionária, inovadora, sua concepção plástica da vida e a força da questão feminista na sua história. Ela termina por nos mostrar, a partir de uma instalação artística montada com películas, que o cinema é a sua casa. Na verdade, as expressões artísticas é que são a sua casa. Ali ela se move com uma desenvoltura admirável. Faz da arte, com seu extremo bom gosto e criatividade, seu guia para se relacionar com lembranças passadas, com sua infância e meninice, com seus amores e amigos, com suas lutas políticas, com sua família, cuja ligação aparece forte no filme, além da sua insuperável ligação com Jacques Demy. Essa ligação é também um vínculo que ela estabelece entre a arte, a doença e a morte. Com extrema delicadeza, nos introduz nos sofrimentos da Aids e no declínio físico progressivo de Jacques Demy e uma vez mais nos emociona.

“As Praias de Agnès” é um filme de uma riqueza de imagens e sentimentos raramente alcançada em documentários ou autobiografias. É que Agnès Varda é uma mulher muito especial e admirável. Isso o espectador capta vendo esse seu filme desde os primeiros planos mostrados, de suas praias.

Um comentário:

  1. Gosto de "As Praias de Agnès" e agora fico com vontade de ver todos os outros filmes dela e do Jacques...

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