terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A SEPARAÇÃO

Antonio Carlos Egypto


A SEPARAÇÃO (Jodaeiye Nader Az Simin).  Irã, 2010.  Roteiro e direção: Asghar Farhadi.  Com Leila Hatami, Peyman Moadi, Sarina Farhadi.  123 min.


“A Separação”, como indica o título brasileiro, é um filme iraniano que trata da separação de um casal: Nader (Peyman Moadi) e Simin (Leila Hatami) e das consequências que isso traz para a vida, não só dos dois, da filha de 11 anos e do pai dele, idoso, com mal de Alzheimer, como também para a empregada diarista, que Nader contrata, seu marido e a filha pequena.  As duas famílias acabarão num julgamento, que envolverá aspectos culturais, morais e religiosos.  E incluirá ainda outras pessoas que se relacionaram, de algum modo, com as duas famílias.  Um belo imbróglio, cheio de novidades e reviravoltas, de que um roteiro muito bem construído dá conta com talento.

A primeira cena já surpreende: diante de um juiz, o casal tenta explicar por que quer se divorciar.  Ela quer ir ao exterior, ele, não.  Alega que tem de cuidar do pai e não entende a importância dessa viagem, de apenas uma ou duas semanas.  Nem nós, nem o juiz, que alega motivo fútil para o pedido.

Considerando-se, porém, que o Irã atual é um regime fechado e que é difícil obter autorização para sair do país, mesmo por um prazo máximo limitado a duas semanas, cujo efeito tem prazo de validade, entende-se a ansiedade de Simin.  Em quarenta dias, suas chances de viajar se evaporam.  Mas será que ela quer, mesmo, fazer uma curta viagem de turismo, visita a familiares ou algo do gênero (não é explicado isso na cena) ou ela pretende evadir-se, abandonar o país e, talvez, a própria família?

Isso é só o começo da trama, que tratará de inúmeras questões-problema do país e do regime, como quem não quer nada.  Aparentemente, está apenas contando um melodrama familiar, sem conotações políticas.  Nem poderia ser diferente, não passaria na censura e, muito menos, seria o indicado oficial do Irã ao Oscar de filme estrangeiro, como é o caso.  O roteiro, porém, é brilhante, ao contrário dos censores oficiais que, pelo jeito, ficaram na superfície do assunto.

Um homem que se separa, trabalha, e tem um pai incapacitado aos seus cuidados, precisa de uma mulher para ajudá-lo, além de sua filha, pré-adolescente.  Mas uma mulher casada, com filha, pode trabalhar na casa de um homem descasado, sem comprometer sua honra? E pode limpar um velho incapacitado sem cometer pecado?


Uma mulher pode deixar seu marido e filha e viver sua vida sem a reprovação social e religiosa?  Um homem pode permitir que sua mulher grávida trabalhe na casa de outro homem sem o seu consentimento, mesmo necessitando muito do dinheiro que ela pode obter com esse trabalho, sem reagir?  Terá razão se agredir o patrão que, supostamente, empurrou sua mulher para que saísse da casa?  Pode-se tocar numa mulher grávida?  Mas pode-se saber se ela está grávida ou não, se o corpo está todo encoberto e, com isso, uma gravidez pode ser disfarçada por um bom tempo?

Questões triviais?  Absolutamente.  Questões que mostram a relatividade dos valores morais, o sofrimento que uma leitura inflexível de princípios produz e a fragilidade das noções de mentira e de verdade.

Diante do Corão, só se pode jurar em nome da verdade. Mas qual é a verdade?  Algo que se sabe pode ser esquecido num momento de raiva e descontrole.  Como assim?  A pessoa sabia ou não? 

O que acontece é que as decisões morais são tomadas em circunstâncias concretas, que envolvem interesses, pessoas e situações sobre as quais não se tem muito controle.  E a dúvida pode pairar soberana.  Em alguns casos, nunca se poderá saber o que é verdadeiro ou não.

Essas reflexões são extremamente importantes e válidas, enquanto considerações éticas, universalmente.  Aplicadas a um regime político como o do Irã, revelam que, sob o tacão autoritário e religioso, vive uma sociedade que pulsa sua contemporaneidade.  Sufocada, mas pronta para vir à tona.  Quem sabe, veremos em breve uma primavera persa?

Asghar Farhadi, que já dirigiu o muito competente “Procurando Elly”, em 2009, mostra que está à altura dos grandes cineastas iranianos, que se mudaram do país ou estão impedidos de trabalhar.  Consegue criar uma obra instigante e profunda que, no entanto, exige uma leitura subliminar.  Não se revela à primeira vista.  Mexe no vespeiro, sem despertar suspeitas.  Excelente.  Faz lembrar a arte brasileira, especialmente a música, durante a nossa ditadura militar.  Que criatividade impressionante era preciso ter para driblar a censura e o regime e, ademais, fustigá-lo.  É o que faz Asghar Farhadi, nos dias de hoje no Irã, conquistando merecidos prêmios internacionais, além do Oscar.


“A Separação” levou três Ursos no Festival de Berlim de 2011: dois de prata, para melhores ator e atriz, e o de ouro, de melhor filme, além do prêmio do júri ecumênico.  Recebeu, ainda, o prêmio de melhor roteiro do American Film Institute (AFI), junto aos críticos de Los Angeles e Boston. Venceu o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira, além de outros 17 prêmios em festivais de cinema pelo mundo.  Merece tudo isso, sem sombra de dúvida.

Um comentário:

  1. FRANCISCO MONTEAGUDO22 de janeiro de 2012 18:56

    Na sua aparente simplicidade de relatar um problema familiar, o filme, na realidade, é extremamente impactante e complexo nas filigranas dos acontecimentos. Como sempre, as análises do Egypto são minuciosas e esclarecedoras. Filme recomendável para todos os que gostam de Cinema com conteudo (ou recheio...), e que motivam discussões apos a seção.
    FRANCISCO MONTEAGUDO

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