segunda-feira, 20 de junho de 2011

A CASA

Antonio Carlos Egypto

A CASA (La Casa Muda). Uruguai, 2010. Direção: Gustavo Hernandez. Com Florencia Colucci, Abel Tripaldi, Gustavo Alonso, María Salazar. 84 min.

“La Casa Muda” é um filme de terror, que toma como base fatos ocorridos num pequeno vilarejo do Uruguai, no longínquo ano de 1944. A situação envolveu a descoberta de dois homens mortos, com sinais de tortura, além de fortes fotografias eróticas que incluíam uma jovem que estava na casa com esses homens, um deles, seu pai, e desapareceu sem deixar vestígios. O caso nunca foi esclarecido e assim continua. Isso dá margem a que se possa compor a história, supondo o que pode ter acontecido.

O diretor Gustavo Hernandez optou por centrar o filme todo no medo que a tal jovem pode ter sentido, num período de pouco mais de uma hora em que essas mortes teriam ocorrido. Toda a filmagem ocorre dentro da casa e há cenas também no seu entorno.

O que chama a atenção no filme, porém, não é bem a sua trama ou o inusitado dessa história nunca solucionada, é o modo como foi realizado. Trata-se de uma produção de baixíssimo orçamento, realizada com uma câmera fotográfica digital, em que, quase todo o tempo do filme – cerca de 74 minutos – compõe-se de um único plano sequência. Ou seja, o diretor pegou sua câmera fotográfica e filmou direto todas as cenas da casa, durante esse período de tempo, sem cortes. Esse tempo seria o tempo verdadeiro que teria vivido a jovem em estado de terror, e nós vivenciamos isso com ela, como espectadores. Daí a chamada “Medo real em tempo real”.

Com o advento do cinema digital, novas e mais simples possibilidades de filmagem aparecem, até mesmo fazê-lo com uma câmera fotográfica capaz de filmar, hoje bastante comum. Democratiza-se a expressão audiovisual e, com muito pouco dinheiro, pode-se fazer um filme. Exibi-lo já é outra história. Mas, de repente, vem um convite para apresentá-lo em Cannes. Afinal, é um trabalho experimental que merece ser conhecido. Pronto, aí está ele nos cinemas.

Quanto à filmagem em plano sequência único, ou quase, já que há algumas cenas complementares, é algo também relevante. “A Arca Russa”, famoso filme de Alexander Sokurov, foi feito assim, mas envolveu um trabalho imenso, muito preparo, ensaios em profusão, uma loucura. Não é o caso aqui. O filme “La Casa Muda” foi feito em apenas quatro dias, com uma câmera na mão. Suas pretensões sempre foram muito pequenas. Num ambiente escuro, basta uma virada da câmera para o escuro total e uma nova cena pode surgir. Mas não é só isso.

Na verdade, o diretor filmou 14 vezes o tal plano sequência praticamente único. E, na edição, juntou as melhores partes de cada rodagem, para chegar ao resultado final, o que descaracteriza a tal filmagem sem cortes. Em todo caso, ele conseguiu, com tais recursos, criar um clima de medo bastante verossímil, fazendo amplo uso do som extracampo, por exemplo. Incomoda ver um filme tão escuro quase todo o tempo, mas não deixa de ser criativo o trabalho realizado.

Cabe à jovem atriz Florencia Colucci, com sua atuação, nos transmitir o que é a razão de ser da proposta do filme: ver o que se passa quando a gente sente medo. Suas expressões, a fragilidade da sua figura e o lúgubre ambiente escuro conseguem esse efeito. Assim como o uso de luzes equivalentes às de lanterna, ou frestas de luz externas, compõem bem o quadro aterrorizante que se busca.

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