terça-feira, 10 de maio de 2011

SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA


Antonio Carlos Egypto


SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA.  Portugal, 2009.  Direção e roteiro: Manoel de Oliveira.  Com Ricardo Trêpa, Catarina Wallenstein, Diogo Dória, Júlia Buisel, Leonor Silveira, Felipe Vargas.  63 min.




Singularidades de uma Rapariga Loura” é uma pequena joia do cinema.  Realização do mestre português Manoel de Oliveira, aos 101 anos de idade, com base num conto de Eça de Queiroz, adaptado e atualizado por ele.  Atualização que pode ser considerada sui generis, já que mostra trabalho ao computador, carros atuais, preços em euros, mas num ambiente que remete ao passado.  As lojas são de rua, com donos conhecidos, não se veem galerias ou shopping centers.

O personagem central, Macário (Ricardo Trêpa), é um contador que trabalha na parte de cima da própria loja de tecidos em que está empregado.  As vestimentas e penteados são tradicionais, assim como o interior das casas e os objetos que elas contêm.  Fazem-se saraus musicais e literários com harpa tocada ao vivo e declamação de poema de Fernando Pessoa, oportunidade para uma ponta do grande ator Luís Miguel Cintra no filme.

Os comportamentos não estão propriamente atualizados.  O casamento é levado muito a sério.  O homem deve se preparar financeiramente para arcar com as responsabilidades familiares e sustentar esposa e filhos que vierem.  Há os pedidos formais aos pais ou aos que ocupam o lugar deles – o tio, no caso de Macário, o que dá origem a um dos principais conflitos da trama, que leva à pobreza o protagonista.  A mulher é passiva, espera pelo homem, a quem cabe a iniciativa, e assim por diante.  É evidente que tudo isso remete ao século XIX, de Eça de Queiroz, mas poderia ter sofrido uma atualização maior.

O que Manoel de Oliveira parece querer dizer é que, a despeito do Portugal moderno e progressista que hoje existe, impulsionado pela União Europeia (no momento, vivendo uma crise), a tradição pesa e está fortemente presente, para o bem e para o mal.  Aí está embutida a lembrança penosa do salazarismo e cita-se o próprio Salazar, que tanto mal causou a Portugal e ao próprio diretor.  Por outro lado, faz reverência à grande literatura e homenageia o autor da trama, ao mostrar, numa das cenas, um instituto ou centro cultural dedicado à memória e à obra de Eça de Queiroz, tradição que orgulha o país.  Além disso, o autor  é incorporado à sua própria criação.

O filme trata de uma paixão que se dá a partir da sacada de um escritório e da janela de uma casa.  Macário terá sua vida transformada completamente, envolvido na paixão pela linda loura (Catarina Wallenstein), que se posta à janela em frente à sua sacada, portando seu maravilhoso leque.  Esse leque, do qual muito se falará, representa a loura, o desejo, o enamoramento, a atração, dos quais não se pode fugir.  Por essa paixão, pode-se perder tudo, uma posição já consolidada no trabalho, o status e o dinheiro.  Por ela, vale ir viver um tempo em Cabo Verde, para juntar dinheiro para poder se casar.  Ela passa a ser o motor da vida.

No mesmo plano, mas separados pela rua, os futuros namorados se conhecem.  Com a câmera postada de cima para baixo, ele procura controlar os passos dela, para ir ao seu encontro.  Com a câmera na posição inversa, ela o chama para descer ao seu encontro.  Tempos depois, ele olha desejoso para ela, agora desde a rua, já que perdeu sua sacada.  Altos e baixos que se sucederão ao longo da narrativa, até que as singularidades da tal rapariga se façam presentes.  O encanto se perde.  Isso posto, não há mais nada e o filme termina.  Abruptamente.  Perfeita solução cinematográfica do diretor: o corte definitivo.  Entram os créditos finais.



Essa mise-en-scène, contando essa história de amor tão marcante, se dá a partir do relato do protagonista a uma desconhecida (Leonor Silveira), numa viagem de trem, onde Macário já está mudado, decepcionado e sem barba.  Manoel de Oliveira só precisou de pouco mais de uma hora para tudo isso.  E não esticou o filme para caber numa sessão comercial de cinema, convencionada para algo em torno de duas horas.  Ele usou o tempo de que precisava, no seu ritmo habitual, sem correrias.  Concebeu e dirigiu um pequeno grande filme.

É uma notícia alvissareira o seu lançamento no circuito comercial de cinema, pelo menos na cidade de São Paulo.  Espero que alcance, além do Rio, muitas outras cidades brasileiras.  E que saia em DVD, para que muito mais gente possa ter acesso a essa joia cinematográfica.

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