domingo, 1 de maio de 2011

O ANJO EXTERMINADOR -- DE BUÑUEL

Antonio Carlos Egypto

O ANJO EXTERMINADOR (El Ángel Exterminador). México, 1962. Direção: Luís Buñuel. Com Silvia Pinal, Enrique Rabal, Jacqueline Andere, José Baviera, Luís Beristain. 95 min.

Um sofisticado jantar da alta burguesia num suntuoso casarão é o ponto de partida de que o cineasta Luis Buñuel se utiliza para nos revelar o lado sórdido desse mesmo encontro. Sórdido porque, para além das convenções sociais, está uma classe social escorada no seu narcisismo, no seu ócio e no seu luxo, insensível ao outro e ao mundo que a cerca.

O filme, brilhantemente, encurrala as pessoas num salão no interior do casarão, de onde não podem sair por uma barreira invisível, já que tudo está escancarado, e são obrigadas a conviver numa situação-limite, em que a falta é a regra.

Estranhezas são mostradas já na fase anterior ao convívio forçado  que será o centro da narrativa. Uma gentil saudação é tentada por um dos convivas por duas vezes e ninguém lhe dá atenção. Trata-se de alguém que não deveria estar nesse lugar ou merecer a atenção dos demais, como se verá depois, ou, ainda, que as pessoas estão muito ocupadas consigo mesmas, com a comida e as conversas para se preocupar em cumprir os rituais dessas ocasiões.

Uma das convidadas é paciente do médico, outro dos convidados, e o chama para dançar. Em seguida, lhe dá um beijo inesperado. Ele pergunta se é transferência, referindo-se ao mecanismo de identificação que o paciente costuma ter com o seu médico. Ela acaba confirmando a idéia, pois diz que faz tempo que queria satisfazer esse desejo. Efetivamente, os desejos são contidos por papéis sociais ou por relações socialmente estabelecidas, como a que envolve médico e paciente. O mecanismo dessa transferência, analisado por Freud, serve ao próprio terapeuta para que ele possa lidar com essas emoções que o paciente lhe dirige, que estão deslocadas e não são, efetivamente, dirigidas à pessoa do terapeuta (ou do médico, no caso). A compreensão e o equilíbrio desse médico servirão de contraponto ao descontrole que tomará conta do grupo de pessoas envolvido naquele jantar, logo a seguir.

Detalhes exóticos também aparecem: pés de galinha e penas vistos numa bolsa farão parte de um ritual esotérico que tentará resolver sem sucesso a situação, mais tarde. O apelo ao pensamento mágico é revelador tanto de insegurança quanto de imaturidade, já que remete a estruturas de funcionamento primitivas.


As pessoas se sentem cansadas, têm compromissos no dia seguinte, querem partir, uma delas com urgência, mas, estranhamente, vão ficando. Desfazem-se das gravatas e de outros incômodos dos trajes sociais, vão se pondo à vontade, deitam-se nos sofás. Um homem passa mal e mesmo assim ninguém sai. E já que ninguém consegue sair, todos terão de dormir ali, no chão, em cadeiras ou sofás disponíveis. Improvisa-se um café da manhã. Alguns ficam perplexos: “Todos quiseram ficar”. “Não acho isso natural”. Com efeito, é a quebra absoluta das regras dos contatos sociais. Só imaginável numa proposta surrealista como a do filme, que se utiliza dela para revelar o que está por trás da “farsa” social dos poderosos.

Acaba a comida, a água, não há banho para tomar, roupa para trocar ou remédio para os enfermos, embora haja o médico entre os presentes. O ambiente se deteriora, o homem que passava mal acaba morrendo e tem de ser guardado num armário, que será vedado para minimizar o cheiro.

Ninguém pode ouvi-los ou socorrê-los, porque também não é possível entrar. Nem mesmo as crianças conseguirão. Mas por ali circulam carneiros e um urso, os animais estão à solta, representando o livre curso dos instintos, enquanto os impulsos estão represados pelo comportamento civilizatório dos humanos. Isso enquanto as carências aguentarem, porque, conforme diz um provérbio mexicano, “depois de 24 horas, cadáveres e convidados começam a feder”.

As convenções sociais, inclusive a etiqueta, têm a função de manter convenientemente as aparências, evitando o desconforto da expressão de emoções, como a raiva, o ciúme, a inveja. Pode até haver ironia ou sarcasmo, mas a agressividade costuma ficar contida, as brigas, evitadas, os interesses mútuos, preservados. O ódio se traveste de amor, o outro lado da sua moeda. A cordialidade e os elogios fazem parte da máscara e da imagem que pretendemos ter sob controle, na relação com os demais. As situações de encontro social, como bem o sabia Buñuel, são aquelas que mais se prestam a uma teatralidade fingida, a um jogo de cena, que chega a ter requintes de crueldade, mesmo nas situações que estão sob o controle das regras civilizatórias de conduta. Que dirá na situação-limite proposta por O Anjo Exterminador?

               Luís Buñuel
Os anfitriões, que devem ser sempre educados e gentis, se tornam escancaradamente grosseiros. A infidelidade que se escondia num “segredo”, que mais valia a pena fingir ignorar, chega ao limite da briga, da agressão física e verbal e do desejo de matar, além da atribuição de culpa pelo sucedido ao “responsável” pela situação. Irracionalidade pura, como assegura o médico, aquele que procura manter sua dignidade até o fim.            
      
Trata-se de irracionalidade, sim, pois aqui estamos no terreno do inconsciente, dos impulsos e pulsões que escapam ao controle. Nas situações corriqueiras da existência, o super ego consegue manter sob controle os impulsos do id, tendo o ego como mediador. O inconsciente se revela em atos falhos, na produção onírica, intelectual ou artística do sujeito, mas a vida segue seu fluxo e é de bom tom não perceber ou ignorar certas coisas, nos ambientes formais. As frustrações podem ser camufladas por meio de representações e mecanismos de defesa, como a negação ou a racionalização. Mas quando a frustração é muito grande, como nessa situação-limite, os desejos já não conseguem realização nem parcial ou por meio da fantasia, embora os sonhos persistam na febre dos enfermos.

A sede leva não só a arrebentar o encanamento da sala como à disputa selvagem pela água, desrespeitando as mais elementares regras de convívio, segundo as quais, por exemplo, deve-se dar prioridade às mulheres e aos doentes. Se alguém ainda se lembra disso, é quase por milagre, já que aqui a mera sobrevivência se faz de forma instintiva, sem consideração para com a alteridade. Gestos heróicos e magnânimos em situações-limite são objeto de outro tipo de cinema, hegemônico e comercial, não da obra crítica e demolidora do mestre Buñuel.

Desejos sexuais e amorosos, fortes e intensos, podem buscar satisfação. Num salão cheio de armários sobra um para os amantes se esconderem da horda grupal, mas a consequência será a morte por falta de ar. O desejo não consegue se sobrepor à morte, é subjugado por ela, nesse caso. Também porque não pode haver saídas individuais em momentos de descontrole coletivo ou politicamente obscuros. A referência ao período da ditadura sanguinária de Francisco Franco, na Espanha, e ao papel repressor da igreja é muito evidente nas cenas da polícia baleando o povo na rua, os carneiros entrando na igreja, onde a mesma barreira invisível prenderá padre, auxiliares e fiéis, tal como ocorrera no salão burguês.

As pessoas simples, os serviçais da casa, escapam dessa opressão. Intuem que algo vai acontecer e saem da casa antes que os fatos se dêem, mesmo sem saber por que e com a consciência de que estão fazendo algo errado, ao deixar o mordomo sozinho numa noite de jantar para 90 pessoas. O mordomo é o único que fica, pois está mais identificado com o mundo burguês, comunga dos mesmos valores. Ele ainda consegue manter um comportamento algo controlado e continua a serviço dos demais, de alguma forma. Até quando come papel e oferece a uma convidada, mantém a postura. Os demais serviçais estarão de volta, também intempestivamente, no momento em que a situação estiver a ponto de se resolver dentro da casa, tempos depois. O tempo corrói a experiência do convívio forçado até níveis degradantes antes que esse momento aconteça.

Hostilidades, desprezo, cinismo, grosseria, violência e sujeira fazem parte da experiência dos convidados ao banquete e de seus anfitriões. Como que a revelar as fragilidades humanas, impulsos destrutivos podem apossar-se das pessoas em situações-limite. Isso, enquanto generalização, porque Buñuel situa os fatos historicamente, embora sem precisá-los, e dentro de uma classe social determinada. Ainda assim é possível pensar numa dinâmica humana mais geral, uma essência vulnerável do ser que, de alguma forma, está sempre presente pelo menos em potencial.

Um comentário:

  1. Não são 90 pessoas no jantar, são 20. E não entendi uma coisa: se a morte do casal no armário foi por falta de ar, por que há sangue? Acho que eles se mataram, porque o homem disse que queria fugir daquilo e a mulher disse que o acompanharia.

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