terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A FITA BRANCA


Antonio Carlos Egypto



A FITA BRANCA (Das Weisse Band). Áustria, Alemanha, 2009. Direção e Roteiro: Michael Haneke. Com Christian Friedel, Leonie Benesch, Ulrich Tukur e Ursina Lardi. 145 min.

O diretor austríaco/alemão Michael Haneke tem marcado sua obra cinematográfica pelo tratamento de temas densos, numa abordagem que mexe com os nervos dos espectadores. Desde “O Sétimo Continente”, de 1989, tem sido assim. Ali, era a insatisfação com a vida burguesa na Áustria contemporânea, cheia de comodidades e tédio, o que levava a uma ruptura radical. Depois, vieram o perturbador “O Vídeo de Benny” (1982) e, sobretudo, “Violência Gratuita” (Funny Games, 1997), um dos filmes mais fortes e tensos a que eu já assisti. O próprio diretor realizou uma refacção em inglês do mesmo filme, do mesmo modo, que foi recentemente exibida e está agora em DVD. Dispensei-a. Afinal, ninguém é de ferro!

“Violência Gratuita” tem a força de exibir uma violência que não é mostrada, mas vivida. Por meio de elipses e coisas que acontecem fora do quadro, sonorizadas, percebemos a extensão e o terror da situação. Afinal, a violência psicológica é até mais terrível do que a violência física. E quando ela não tem as tradicionais explicações ou justificações, que põem as coisas nos eixos, o terror é absoluto.

Haneke se interessa pela maldade, pela violência, pela intolerância, pela invasão da privacidade, pelos absurdos da vida e pela crueldade humana. Outros filmes dele, como “Código Desconhecido” (2000), “A Professora de Piano” (2001) e “Caché” (2005), vão na mesma linha, tendo em comum uma espécie de estranhamento e mal-estar da contemporaneidade.

“A Fita Branca” se desloca desse tempo para o período anterior à Primeira Guerra Mundial, num vilarejo protestante alemão. Aqui os códigos não são mais os da modernidade. Os princípios são rígidos. Filhos respeitam os pais. Os homens têm o poder de decisão sobre a família. A religião prescreve e pune. Um mundo bem diferente de hoje, lá os valores são claros e o que é certo ou errado fica evidente. A fita branca representa a desejada pureza. Para os saudosistas, quem sabe não seria o melhor dos mundos? Ledo engano.

O que Michael Haneke, também roteirista do filme, mostra dessa comunidade é que, por baixo dessas camadas de ordem, há uma profunda crueldade, que leva ao trágico. Acidentes estranhos e maldosos começam a acontecer no vilarejo, a partir de uma corda fina colocada no caminho de um médico, que costumava passar a cavalo pelo local, derrubando-o e produzindo ferimentos graves. No dia seguinte, a corda criminosa não estava mais lá, impedindo as investigações. Isso é só o começo de uma trama alinhada para mostrar que a maldade humana não tem tempo, nem hora, nem lugar, é onipresente. E o que é sórdido vai aparecendo por todos os lados. Lembra a literatura e o teatro de Nelson Rodrigues. O poder castrador da religião remete a Ingmar Bergman. O ambiente antigo, filmado em preto e branco, reforça que é dessa essência de crueldade que se trata, num mundo aparentemente ordeiro, controlado e harmônico. Geralmente, é na normalidade aparente que se escondem as maiores perversões, não é assim? Esse tipo de ambiente pode ser visto como o caldo de cultura de que se alimentaria o nazismo, algum tempo depois.

Haneke, com “A Fita Branca”, atesta que não é a contemporaneidade o problema, mas o próprio ser humano, desde sempre. Concordemos ou não, é por aí que ele vai. Claro está que não é um filme fácil de se ver, menos pelo que ele possa ter de explícito, que na verdade não tem, e mais pelo que ele tem de perturbador e questionador, a partir do que nos está sendo mostrado ou omitido.

A maldade e a crueldade que pontuam todo o filme não são expostas, mas antes sugeridas ou realizadas atrás de portas que se fecham, como na cena do menino e da menina que serão açoitados pelo pai. Em outro momento, o passarinho já aparece morto, com uma tesoura enfiada nele. Ou o rosto do menino com deficiência, que se vê depois do presumido ataque. Isso é típico do jeito de filmar inteligente do diretor. Elimina-se o explícito para dar vez ao suposto, sensibilizar e fazer pensar.

Ninguém está livre dessa dimensão malévola do humano, nem as crianças e os adolescentes. Não se trata de descobrir quem fez o quê. Isso é o que menos importa. A maldade está mesmo em toda parte. Pessimista? Sem saída? Pode ser. Mas que dá o que pensar, não há dúvida. Não por acaso, “A Fita Branca” foi o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2009 e levou também o Globo de Ouro de filme estrangeiro.

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