quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A INVENÇÃO DE HUGO CABRET

 Antonio Carlos Egypto


A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Hugo). Estados Unidos, 2011.  Direção: Martin Scorsese.  Com Asa Butterfield, Chloe Grace Moretz, Christopher Lee.  126 min.

Em “A Invenção de Hugo Cabret”, Martin Scorsese faz uma admirável homenagem ao cinema.  Antes de mais nada, pela deslubrante filmagem em 3D, que inclui panorâmica da estação ferroviária da Paris dos anos 1920, engrenagens do grande relógio e dos trens, além de um autômato, que tem função vital na trama.  A movimentação das câmeras na estação, para registrar os passageiros chegando e saindo, os trens em ação, as perseguições, o cachorrão, as lojas de flores e brinquedos, tudo é impecável.  Puro deleite.

A narrativa que se centra no menino Hugo, o órfão com grande talento para consertar coisas e que busca uma mensagem do pai morto por meio de um robô, produz uma aventura suficientemente interessante para o público em geral.

Mas onde o filme brilha mais é ao contar a extraordinário trajetória de Georges Méliès, o primeiro grande cineasta da história do cinema, o inovador criador de “Viagem à Lua”, de 1902, e de centenas de filmes curtos extremamente criativos, em que a técnica recém-descoberta estava a serviço do sonho e da magia.  O cinema nascia assim como uma verdadeira arte, ao mesmo tempo eminentemente popular.


Belíssima a reconstrução de cenas dos filmes de Méliès, além da oportuna inclusão de trechos originais.  Para quem quiser ver os filmetes originais, há uma edição em DVD “Uma Sessão Méliès: 15 filmes de Georges Méliès”, da coleção Cultclassic, que vale a pena.  É uma verdadeira revelação, para quem não conhece o trabalho desse grande pioneiro do cinema.

Scorsese também recria a famosa sessão inaugural do cinema dos Irmãos Lumière, em 1895, com a projeção de “A Chegada do Trem na Estação”, que chegava a assustar uma audiência que nunca tinha visto uma fotografia se mover.  Méliès estava lá e percebeu as possibilidades que o novo recurso poderia lhe trazer e, por ser muito proativo, descobriu, também por acaso, possibilidades técnicas que geraram os recursos cinematográficos de que hoje desfrutamos.

Scorsese homenageia o cinema mudo como um todo, destacando “O Homem Mosca”, fantástico trabalho de Harold Lloyd, de 1923, cujas cenas de suspense continuam inspirando trabalhos cinematográficos desde sempre.  Em um dos filmes em cartaz nos cinemas, atualmente, “À Beira do Abismo”, de 2011, dirigido por Asger Leth, em que um presidiário ameaça se atirar do alto de um hotel, há uma clara referência a uma cena famosa de Lloyd escalando espaços entre blocos retangulares da fachada de um edifício.  No filme de Scorsese, Hugo Cabret fica pendurado nos ponteiros do relógio, a grande altura, como Lloyd, cartazes de “O Homem Mosca” aparecem.

Enfim, quem gosta de cinema ou conhece um pouco da sua história vai se deliciar com “Hugo”.  E quem gosta de grandes espetáculos, também, já que o 3D aqui está muito bem explorado e utilizado para dar uma dimensão mágica ao cinema.  A competência de Martin Scorsese, para lá de reconhecida, galga mais um degrau com a nova experiência.  Pena que ele não tenha levado o Oscar de melhor diretor.  Merecia. “Hugo” levou 5 Oscars que destacam a excelência técnica da produção, que é, aliás, muito evidente, basta ver surgirem as primeiras cenas.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os Descendentes


Tatiana Babadobulos


Os Descendentes (The Descendants). Estados Unidos, 2011. Direção e roteiro: Alexander Payne. Com: George Clooney, Shailene Woodley e Amara Miller. 115 minutos

Trata-se de um filme comum, com uma história comum, sobre uma família comum. Mas é o modo como a história do longa-metragem "Os Descendentes" é contada pelo diretor Alexander Payne (“Sideways – Entre Umas e Outras”) é que o difere das outras produções que chegam aos cinemas. Sem contar, é claro, a grande interpretação de George Clooney.

Para começar, o filme lhe rendeu o Globo de Ouro e indicação ao Oscar na categoria Melhor Filme, mas perdeu para Jean Dujardin, de "O Artista". Competiam com ele também Brad Pitt (“O Homem que Mudou o Jogo“), Demián Bichir (“A Better Life”) e Gary Oldman (“O Espião que Sabia Demais”). Ainda que Dujardin esteja ótimo no papel, achei que Clooney levaria a estatueta. Como ouvi por aí, conseguiram deixá-lo feio (se é que isso é possível…). Mas vamos aos fatos.



Na trama, Clooney é um dos herdeiros de uma gigantesca área no Havaí, de frente para o mar. Um dos herdeiros, já que os outros descendentes dos seus ancestrais também estão de olho na grana. O foco aqui, porém, não é exatamente a bolada que a família toda vai entrar, mas principalmente a família de Clooney, já que sua esposa está em coma devido a um acidente no mar e ele tenta se reaproximar das filhas. A partir daí, o espectador vai acompanhar o que o pai vai fazer para unir as meninas e, de fato, ser um bom pai para elas daqui pra frente.

Uma das cenas que fica marcada é quando Clooney aparece correndo pelas ruas próximas de onde mora. Normal, bem desajeitado e de chinelos. Ao contrário do modo como os heróis costumam correr no cinema. É aí que a trama ganha mais realidade, é quando percebemos que trata-se de uma personagem que poderia ser real.

Além da família comum, incluindo a filha adolescente com problemas de drogas na escola na qual estuda, a fita apresenta imagens lindas do Havaí, com as belas praias, mas mostrando o cotidiano das pessoas. Logo no início do filme, Clooney fala sobre o fato de morar no Havaí, mas não surfar há muitos anos. Constatação típica para quem acha que, por morar à beira mar, tem obrigação de desfrutar de tudo, o tempo todo.

A única coisa da qual ele não abre mão, tampouco as outras personagens da fita, é a camisa florida. Essa, sim, é clichê e está presente na praia e nos eventos sociais da fita.

"Os Descendentes" faz uma reflexão rápida, com bom humor e uma pitada de drama, sobre a trajetória da família, os valores a serem priorizados, como união, fidelidade, paternidade, além do dinheiro (e as mazelas que ele traz).

Além do prêmio de Melhor Ator, o longa concorreu nas categorias: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Direção e Edição. Levou como Roteiro. Justo.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

TÃO FORTE E TÃO PERTO

Antonio Carlos Egypto


TÃO FORTE E TÃO PERTO (Extremely Loud & Incredibly Close).  Estados Unidos, 2011.  Direção: Stephen Daldry.  Com Thomas Horn, Tom Hanks, Sandra Bullock, Max Von Sidow, Viola Davis, John Goodman, Zoe Caldwell.  129 min.

O filme “Tão Forte e Tão Perto” conta uma história muito intensa, envolvente e de grande carga emocional, com base no romance “Extremamente alto e incrivelmente perto”, de Jonathan Safran Foer.  Ao diretor Stephen Daldry coube a tarefa de pôr em imagens uma ficção que tem como referência os trágicos acontecimentos de 11 de setembro de 2001 em Nova York, com a queda das Torres Gêmeas por ato terrorista. O assunto é traumático para os norte-americanos que, praticamente, não trataram o tema como ficção no cinema, até hoje.  Só me lembro de um episódio do filme “11 de Setembro” de 2003, dirigido por Sean Penn, o restante teve abordagem documental.

Aqui, toda a trama é contada a partir da percepção do menino Oskar (Thomas Horn), de 11 anos de idade, que perdeu o pai, vivido por Tom Hanks, naquele dia fatídico, que ele costuma chamar de o pior dia.  Oskar é um menino diferente, muito inteligente, mas vivendo em um mundo à parte (uma espécie de autismo), que ele constrói com cores vivas, mas também com muitos medos e obsessões.  O pai era seu esteio e norte, alguém que o desafiava a pensar, encontrar soluções, agir.  A mãe, vivida por Sandra Bullock, é percebida como mais distante do seu mundo.  Afetivamente próxima, mas aparentemente sem compartilhar de sua vida fantasiosa de menino criativo e investigador.


No filme, vivemos com Oskar seu sofrimento, a necessidade de elaborar essa perda terrível e encontrar razão de ser numa vida que se tornava sem sentido.  Mas havia os recados na secretária eletrônica, as últimas palavras gravadas do pai.  Um tormento para ser enfrentado.  E aparece uma chave num envelope e uma pista: a palavra escrita black.

Oskar parte para uma busca obsessiva e improvável de encontrar o que essa chave abre e que significado tem, nem que seja percorrendo toda a cidade de Nova York para isso.  A uma certa altura, encontra ajuda na figura de um inquilino de sua avó (Zoe Caldwell), um senhor octogenário, vivido pelo extraordinário ator Max Von Sidow, que não fala uma palavra, apenas escreve no seu caderno de notas para se comunicar.

“Tão Forte e Tão Perto” nos mostra a mente de Oskar, o que ele pensa, o que vive, o que faz.  É um personagem fascinante, que exige um ator à altura.  Thomas Horn tem um desempenho espetacular nesse papel.  Stephen Daldry repete o feito de encontrar um grande ator mirim, como já havia acontecido em “Billy Elliot”, de 2000, ao revelar o ator e dançarino Jamie Bell. Thomas Horn contracena com grandes atores e atrizes, como são Tom Hanks, Sandra Bullock, Viola Davis, Max Von Sidow.  Mas quem brilha é ele, que assume o seu protagonismo com toda a força.  O seu desempenho vale o filme.

Stephen Daldry segue sua trajetória de bom contador de histórias no cinema.  “Billy Elliot” é uma boa trama sobre o tema das relações de gênero pelo lado masculino, com seus preconceitos e estereótipos.  “As Horas”, de 2002, que traz à cena a figura da escritora Virginia Woolf e outras duas mulheres a ela relacionadas, também narra eventos de grande intensidade emocional.  E “O Leitor” apresenta uma trama cheia de implicações éticas e muito emocionante.  Enfim, trata-se de um cineasta que sabe contar histórias e trabalhar fortemente com as emoções, sem medo ou pudor.  Faz um bom trabalho.  Seus filmes não são geniais, não inovam a linguagem do cinema, podem até ser chamados de antiquados ou lacrimosos, mas são bem construídos e fisgam o espectador, não há como negar.


“Tão Forte e Tão Perto” foi indicado para concorrer ao Oscar de “melhor filme” e Max Von Sidow, ao de “ator coadjuvante”.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Invenção de Hugo Cabret



Tatiana Babadobulos

A Invenção de Hugo Cabret. (Hugo). Estados Unidos, 2011. Direção: Martin Scorsese. Roteiro: John Logan. Com: Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz e Christopher Lee. 126 minutos



Martin Scorsese, autor de filmes como “A Ilha do Medo”, “Os Infiltrados”, “O Aviador”, “Touro Indomável”, “Táxi Driver” resolveu juntar a tecnologia do cinema (3D) com os primórdios (cinema silencioso) e fazer uma grande homenagem à sétima arte. O resultado pode ser conferido em “A Invenção de Hugo Cabret” (“Hugo”), uma belíssima produção que chega aos cinemas nesta sexta-feira, 17.

Depois de os irmãos Lumière fazerem a primeira apresentação de cinema no dia 28 de dezembro de 1895, o mágico Georges Méliès ficou fascinado com o que o cinematógrafo era capaz de fazer e tratou de encomendar um aos conterrâneos franceses. Não conseguiu comprar o aparelho deles, mas se valeu de outros meios para conseguir um. Então, com o aparelho em mãos, filmou as suas mágicas e trucagens e apresentou-as em forma de filmes. Méliès produziu mais de 500 (que naquele tempo eram bem curtos) e o seu mais conhecido chama-se “Viagem à Lua”, de 1902, com oito minutos de duração e colorido à mão, fotograma por fotograma.



Mas o que tem a ver o longa-metragem de Scorsese com um dos pais do cinema? Na trama, que tem roteiro de John Logan (“Rango”, “O Aviador”), baseado no livro de Brian Selznick, o garoto Hugo (Asa Butterfield, de “O Menino do Pijama Listrado”) resolve remontar um robô, que seu pai (Jude Law, de “Contágio”, “Um Beijo Roubado”), um relojoeiro renomado na Paris dos anos 1930, deixou de lembrança. No meio do caminho, conhece um senhor, Georges (Ben Kingsley, de “Ilha do Medo”), que tem uma loja na estação de trem. Sua neta, Isabelle (Chloë Grace Moretz, de “(500) Dias Com Ela”), o ajuda em mais uma missão.

Se a história não parece empolgante, em um primeiro momento, é o visual que vai deixar o espectador estarrecido. Primeiro porque a história se passa em Paris, no começo do século 20, e as ambientações foram todas refeitas para receber as filmagens. A estação de trem onde mais tempo se passa a trama é hoje o Musée D’Orsay (museu com obras impressionistas) e, que, no passado, era realmente uma estação.

Enquanto Hugo vai tentando descobrir o segredo que seu pai lhe deixou, e procurando um novo lar, o espectador vai sendo inserido dentro do filme, com a ajuda da terceira dimensão.



Na primeira imagem, com a Torre Eiffel ao fundo, Scorsese já mostra que está em Paris. Embora toda a ambientação seja na capital francesa, os diálogos são todos em inglês. Este talvez seja um dos equívocos na produção, pois engana o espectador, já que os nomes das personagens e as placas dos estabelecimentos são em francês. No idioma de Molière só são pronunciados “monsieur” e “mademoiselle”. Esse tipo de opção há um propósito, é claro, já que os norte-americanos, geralmente o maior público do cinema de Scorsese, não tem o costume ir ao cinema para assistir à produções dubladas ou com legendas.

Para ambientar a narrativa na Europa, porém, o diretor preferiu atores britânicos, com exceção de Chloë. Também faz parte do elenco Sacha Baron Cohen (“Borat”), como o inspetor da estação, um funcionário atrapalhado, que foi pra guerra e hoje tem problema com uma das pernas. São protagonizadas por eles as melhores cenas de humor da fita.

Scorsese lembra, no material de divulgação para a imprensa, que Méliès “explorou e inventou basicamente boa parte do que fazemos hoje”. E continua: “É uma linha direta entre os filmes de ficção científica e fantasia dos anos 1930, 1940 e 1950 até o trabalho de (Steven) Spielberg, (George) Lucas, James Cameron. Está tudo lá. Méliès fez o que fazemos hoje com computadores, tela verde e tecnologia digital, mas ele conseguiu apenas com sua câmera e estúdio”.

“A Invenção de Hugo Cabret” é mais do que fantasia. É uma forma que Scorsese encontrou de homenagear quem começou a fazer cinema, e presentear os espectadores com belíssimas imagens e com 3D honesto e com finalidade. Uma nostalgia real e que mostra, cada vez mais, que o conteúdo precisa estar, sobretudo, acima da forma. E que utilizar a tecnologia para contar uma boa história é um bom negócio.

“A Invenção de Hugo Cabret” concorre a 11 estatuetas do Oscar, a maior indicação este ano. Dia 26 de fevereiro vamos conhecer os vencedores.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O Homem que Mudou o Jogo


Tatiana Babadobulos

O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball). Estados Unidos, 2011. Direção: Bennett Miller. Roteiro: Steven Zaillian e Aaron Sorkin. Com: Brad Pitt, Robin Wright, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman. 133 minutos.


“O Homem que Mudou o Jogo” (“Moneyball”) é mais um filme que tem o esporte como enredo, mas não é o foco. A trama gira em torno do beisebol, esta modalidade pouco conhecida pelos brasileiros, mas um dos esportes favoritos dos norte-americanos. A fita é baseada na história real de Billy Beane (Brad Pitt, de “Bastardos Inglórios“), um astro promissor do beisebol que transferiu sua natureza competitiva na carreira de general manager (uma espécie de dirigente, para falar no idioma futebolístico).

Com orçamento modesto, seu time, o Oakland A’s, perdeu todos os seus grandes astros para clubes milionários. Sendo assim, precisa reconstruir a equipe, bem como mudar a cabeça dos atletas, de modo a vencer com um terço da folha de pagamentos deles. Para tanto, Billy contrata Peter Brand (Jonah Hill), um economista com talento para estatísticas. E será assim, com a matemática, que os dois pretendem mudar o jogo e, claro, vencer.



Baseado no livro homônimo de Michael Lewis (com roteiro de Steven Zaillian, de “A Lista de Schindler”, ao lado de Aaron Sorkin, de “A Rede Social”), o diretor Bennett Miller (“Capote”) não faria um filme sobre derrotas, certo? Partindo desse princípio, já se sabe, logo de cara, qual é o final. Mas é o caminho que será percorrido para chegar ao sucesso que pode interessar ao espectador.

Entre lições de estatística, combinações inimagináveis e que poderiam ser aplicadas em outras modalidades populares, como o futebol, “O Homem que Mudou o Jogo” não é um filme que impressiona. Ao contrário. É um longa comum, que trata de confiança, superação e sucesso, que faz o responsável pelo caminho a ser galgado pelo time pensar diferente, ir pela borda a fim de se destacar, além de contrariar o experiente treinador (Philip Seymour Hoffman, de “Tudo Pelo Poder”).

No mínimo, uma boa inspiração, com direito ao colírio que atende pelo nome de Brad Pitt. Ele, aliás, é mais que um rosto bonito em Hollywood. Pitt concorre, mais uma vez, ao Oscar de Melhor Ator. No Globo de Ouro, perdeu para o amigo George Clooney, em “Os Descendentes”.

A fita concorre também nas categorias Edição, Mixagem de Som, Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A DAMA DE FERRO

Antonio Carlos Egypto


A DAMA DE FERRO (The Iron Lady). Inglaterra, 2011. Direção: Phyllida Lloyd. Com Meryl Streep, Jim Broadbent, Richard Grant, Harry Lloyd, Anthony Head. 105 min.

“A Dama de Ferro” é uma biografia cinematográfica de Margaret Thatcher. Primeira-Ministra britânica, de 1979 a 1990, coordenou com inflexibilidade e rígidos princípios liberais-capitalistas, o governo inglês. Primeira mulher a alcançar tal posição de poder no Reino Unido (excluída a monarquia, naturalmente), não deixou saudades para seu povo, que sofreu as agruras de sua ação política, principalmente com o desemprego e a ausência de preocupações sociais. A elite comemorava os sucessos econômicos e a era de privatizações, enquanto os efeitos da globalização penalizavam mais a população.

Por que se dedicar a contar a história desse personagem? Muitos talvez desejassem esquecê-la de vez. Em todo caso, é uma figura importante da história inglesa recente. E registrar essa trajetória tem um significado para a memória histórica da Grã-Bretanha. Não tem o charme dos reis e rainhas que costumam agradar aos ingleses, e ao mundo, quando retratados pelo cinema, mas, enfim, cabe o registro.

A ex-Primeira-Ministra Thatcher, hoje com 86 anos, já está há um bom tempo retirada da cena pública, não só pela aposentadoria, mas principalmente por um quadro de demência que a incapacita. Embora, segundo o filme, lhe reste um tanto de lucidez, ainda.

“A Dama de Ferro” parte do estágio atual de Thatcher, para que ela rememore sua história, entremeada por alucinações, em que contracena com seu marido morto em 2003, Denis. O fato de mostrá-la idosa e frágil acaba por atenuar os traços altamente autoritários e sua vasta insensibilidade social. É inevitável que a gente sinta pena dessa senhora, apesar de tudo o que o seu governo conservador produziu em seu período de poder.

Essa escolha mostra uma simpatia com tal personagem que, na verdade, não me parece merecedor disso. Os muito conservadores talvez discordem, mas a marca da sra. Thatcher no poder foi nefasta, para o povo britânico e para o contexto mundial. O filme, nos flash- backs que contam a história, mostra os conflitos e a reação popular, sem se deter nas causas e efeitos das políticas, nem passar a emoção da revolta popular.

Quando o próprio Partido Conservador se volta contra ela e a destitui de sua liderança, a narrativa mostra que isso se deveu muito mais a um incidente em que ela foi grosseira e ríspida com um membro importante do governo e do partido, do que ao esgotamento de sua política, que acabou produzindo rejeição até entre os conservadores. O fato destacado pelo filme pode ter sido a gota d’água, não mais do que isso.


“A Dama de Ferro” dedica bastante tempo a apresentar a decisão firme de Thatcher em bancar a guerra contra os argentinos nas Falklands/Malvinas que, ao unir os ingleses contra o inimigo comum, reforçou o senso patriótico e disso ela se aproveitou para reverter um quadro impopular. Ou seja, um momento forte, e de vitória, ganha mais espaço do que as críticas produzidas ao longo de mais de uma década de poder.

Valorizar a conquista do poder pelas mulheres pode ter grande significado se e quando a mulher leva sua sensibilidade para a gerência do Estado e para a consecução de políticas públicas de avanço social e combate à desigualdade, por exemplo. Margaret Thatcher, ao contrário, foi uma mulher que exerceu o poder do jeito masculino mais tradicional. Pior até do que os homens, mais inflexível e dura do que eles. Não por acaso, ficou conhecida como a dama de ferro. Foi o jeito que encontrou para se impor aos próprios homens, ao seu partido, ao país e ao mundo. Não há motivos para comemorações, no entanto.

Vale a pena ver “A Dama de Ferro”, se você concorda minimamente comigo em que não se trata de uma figura a festejar? Talvez, se você quiser se informar sobre o assunto, por meio do cinema, ou ver um desempenho notável de atriz. Meryl Streep, novamente indicada ao Oscar, não é novidade para ninguém, é capaz de interpretações inesquecíveis dos mais diversos e variados personagens. Ela é tão boa no papel que pode acabar convencendo o público de que a sra. Thatcher era bem melhor e mais humana do que de fato ela era. Não que ela não passe a dureza daquela mulher, mas é que o filme se centra muito mais no seu período presente, da demência e debilidade. Meryl Streep faz essa fase muito bem e comove, o que é um perigo. Pode vender gato por lebre.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O ARTISTA

Antonio Carlos Egypto



O ARTISTA (The Artist). França, 2011. Direção: Michel Hazanavicius. Com Jean Dujardin, Berenice Bejo, John Goodman, James Cromwell. 100 min.


Fevereiro de 2012. A premiação do Oscar está chegando e os cinemas se apressam em lançar todos os filmes indicados ao galardão máximo da indústria, de olho na bilheteria. O público geralmente corresponde. Um dos favoritos deste ano é “O Artista”, que já levou o prêmio de ator em Cannes, 3 Globos de Ouro, prêmios da crítica em Nova York e Londres, indicação ao Bafta.

Começa a projeção: o filme é em preto e branco, mudo, com intertítulos. Só falta o acompanhamento musical ao vivo, para voltarmos ao ano em que começa a ação: 1927. Como naquele tempo, os atores e seus personagens bem que tentam falar, a câmera até põe em primeiro plano bocas falando. Que tal tentar leitura labial? Não, não é possível ouvi-los, num filme silencioso. Mas a música já não está fora da película, como naquele tempo, acompanha cada plano de “O Artista”. E é uma bela trilha sonora.

A produção é francesa, assim como o diretor, Michel Hazanavicius. Mas o filme é sobre Hollywood, seu glamour, seus astros e estrelas do tempo do cinema mudo. E o que aconteceu com eles, quando adveio o cinema sonoro.


O artista em questão é George Valentin (Jean Dujardin), uma mistura de Douglas Fairbanks com Rodolfo Valentino, que está no Olimpo e não imagina que algo possa tirá-lo de lá. É amado, venerado pelas fãs, tem um sorriso largo e teatral, de quem domina o ambiente. Lembrando Charlie Chaplin, se nega a fazer filmes sonoros, preferindo continuar com os silenciosos. Mas a tecnologia será irreversível e, se necessário, engolirá grandes talentos. Assim como produzirá novas estrelas, como Peppy Miller (Berenice Bejo), ex-fã e candidata a atriz, que se dá bem com o cinema sonoro e vira estrela, enquanto o astro decai. Só que rola uma química amorosa entre eles, o que acabará por unir, na trama, os dois momentos marcantes do cinema: o auge do mudo e o sucesso avassalador do cinema falado.

Não há muita novidade nessa narrativa. “Cantando na Chuva”, de Stanley Donen e Gene Kelly, de 1952, já havia contado tudo isso num musical dos mais brilhantes da história do cinema. Só que, ali, o filme era feito com todos os recursos da época, inclusive a cor e o som, sem disfarces.

Em “O Artista”, simula-se um filme a la final dos anos 1920. Conta-se a história, procurando fazê-lo do modo como ela seria contada na época em que ocorre. É como se. Evidentemente, os recursos atuais do
cinema estão lá, mas procura-se criar um clima que remete àquele passado.

Duas cenas, pelo menos, nos trazem de volta ao presente cinematográfico. Peppy Miller se abraça ao casaco pendurado do astro e uma mão sai da manga e a acaricia. Em outro momento, George Valentin tenta falar e não é ouvido, mas todos os outros sons do camarim são ouvidos, como algo que bate ou cai, por exemplo.


Chamam a atenção as boas performances dos protagonistas, mas quem encanta a plateia é mesmo um cachorrinho sensacional, amigo inseparável de Valentin, e que tem papel decisivo na história.

“O Artista” faz uma homenagem ao cinema mudo, sua maneira de representar e contar histórias, reverenciando Hollywood, a sua fábrica de sonhos. Homenageia especialmente o cinema de entretenimento, embora reverencie também o seu lado artístico. Que é diferente do expressionismo alemão, que dominou a cena cinematográfica da década de 1920, com obras de grande porte. Havia também a comédia muda, centrada na ação física, de gente como Charlie Chaplin, Buster Keaton, o Gordo e o Magro, e era uma vertente diferente da dos romances, westerns e aventuras do tipo capa e espada. Sem falar nos filmes históricos ou policiais. Os gêneros cinematográficos foram se estabelecendo e se consolidando.

O cinema silencioso era um universo extremamente rico e variado. Voltar a ele, para relembrá-lo, é cultivar a história do cinema, uma arte que se impôs, evoluiu com tamanha rapidez e alcançou um significado cultural que seus pioneiros mal poderiam imaginar. A lembrança é oportuna, até surpreende que o filme tenha tido apoio para ser realizado e que se destaque dessa maneira. Deve ter deixado perplexo até mesmo o ousado diretor francês que o concebeu.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Histórias Cruzadas


Tatiana Babadobulos

Histórias Cruzadas (The Help). Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Índia, 2011. Direção e roteiro: Tate Taylor. Com: Emma Stone, Viola Davis e Octavia Spencer. 146 minutos.

No interior dos Estados Unidos dos anos 1960, uma garota da alta sociedade, ao se formar na faculdade, resolve fazer uma denúncia sobre o preconceito entre as patroas (brancas) e as empregadas (negras). Grosso modo, esse é o resumo de “Histórias Cruzadas” (“The Help”), longa-metragem que estreia nesta sexta, 3.

Skeeter (Emma Stone, de “Amizade Colorida”) é a tal garota, aspirante a escritora, que negocia com uma editora a publicação do livro com depoimentos das empregadas, cujo gancho é: se elas são capazes de criar os seus filhos, por que não podem usar os seus banheiros? A elas são reservados os do lado de fora da casa onde vivem e o papel higiênico é controlado, é claro.

No início, Skeeter começa a trabalhar como secretária de uma redação e precisa responder as dúvidas das leitoras acerca dos afazeres domésticos. Para isso, conta com a ajuda de Aibileen (Viola Davis), empregada da sua melhor amiga. Então, as outras governantas, como Minny (Octavia Spencer), começam a se abrir e a história vai ganhando corpo, depoimentos reais e alívio pelo desabafo dos maus tratos.

O longa, escrito e dirigido por Tate Taylor (que até então era mais conhecido como ator em “Inverno da Alma”, por exemplo), é baseado no best-seller homônimo de Kathryn Stockett.

No início, as apresentações vão sendo feitas e o espectador vai se colocando no lugar das personagens. Naquela sociedade, na qual as mulheres são “feitas para casar” e mandar na criadagem, Skeeter está fora do contexto, já que nunca arrumou um namorado, mesmo aos 23 anos. E a sua mãe (Allison Janney) fica inventando o que fazer para ela finalmente se casar. Mas ela não quer, está bem sozinha. Embora o foco seja no preconceito e o lado fraco é das governantas negras, o longa dá conta de mostrar também como vivem as fúteis “madames”. O banheiro é a alegoria, claro, já que às negras não são permitidas muitas outras coisas.



O tema não é inédito, é verdade, já que o preconceito já foi muito discutido no cinema. Só Clint Eastwood fez dois recentemente: “Gran Torino” e “Invictus”. Mas “Histórias Cruzadas” é cheio de emoção sem excesso, como “Um Sonho Distante”. E, ainda que a situação seja ambientada nos anos 1960, muitas das situações que vemos ali poderiam ter acontecido na semana passada.

As interpretações das atrizes, são realmente boas, convencem bem o espectador. Não é  à toa que, entre as quatro indicaçõs ao Oscar, três são para elas: Melhor Atriz (Viola Davis) e Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain e Octavia Spencer). Destaque principalmente para Octavia, que já ganhou o Globo de Ouro. Viola também está ótima no papel, mas, no Oscar, terá de disputar com Meryl Streep, em “Dama de Ferro”, que também ganhou o Globo de Ouro. No SAG (Screen Actors Guild), prêmio dos sin­di­ca­tos dos ato­res de Hollywood entregue na semana passada, Viola venceu e desbancou a favorita. A quarta indicação é Melhor Filme.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

AS PRAIAS DE AGNÈS

Antonio Carlos Egypto


AS PRAIAS DE AGNÈS (Les Plages d’Agnès). França, 2008. Direção: Agnès Varda. Documentário. 100 min.

Agnès Varda, nascida em Bruxelas em 1928, onde passou sua infância, é uma cineasta considerada precursora do famoso movimento da nouvelle vague do cinema francês. Seu filme “La Pointe Courte”, de 1954, é geralmente citado nesse sentido. Nos anos 1960, dois filmes marcaram a direção cinematográfica de Varda como verdadeiras obras-primas: “Cleo das 5 às 7”, de 1962, e “As Duas Faces da Felicidade”, de 1965.

Agnès alternou seu trabalho no cinema entre a ficção e o documentário e, casada com o famoso cineasta Jacques Demy, dedicou-se à memória da obra que ele realizou, a partir da morte dele, em 1990. De Jacques Demy, vale a pena lembrar-se dos encantadores “Os Guarda-Chuvas do Amor”, de 1960, “Pele de Asno”, de 1971, além de “Lola, a Flor Proibida”, de 1960, entre outros.

Agnès Varda e Demy viveram uma história de amor admirável e isso está muito evidente neste magnífico “As Praias de Agnès”, que está sendo exibido nos cinemas com atraso em relação à sua produção. Mas não é só isso o que se destaca. A figura de Varda e sua trajetória pelo mundo da arte e do comportamento humano e político é notável.

Ela se retrata nesse documentário, justapondo suas crenças, preocupações, o seu jeito de ser e de lidar consigo mesma e com o mundo, à fotografia que marcou sua vida, aos seus filmes, aos seus familiares e às suas praias. Segundo ela, “Se você abrir uma pessoa, irá achar paisagens. Se me abrir, irá achar praias”. E belas imagens ligadas a praias concretizam essa ideia. A começar pelos grandes espelhos que ela põe para contracenar com o mar, a areia e as pessoas, criando logo de início um impacto visual belíssimo.

Fotos maravilhosas mostram que sua atuação profissional como fotógrafa, antes mesmo do cinema ou junto com ele, foi excepcional. O uso das fotos para ir revelando uma trajetória de vida e de atuação marcantes no mundo é perfeito.



O jeito doce dessa senhora, diretora de cinema, revela ao mesmo tempo sua determinação revolucionária, inovadora, sua concepção plástica da vida e a força da questão feminista na sua história. Ela termina por nos mostrar, a partir de uma instalação artística montada com películas, que o cinema é a sua casa. Na verdade, as expressões artísticas é que são a sua casa. Ali ela se move com uma desenvoltura admirável. Faz da arte, com seu extremo bom gosto e criatividade, seu guia para se relacionar com lembranças passadas, com sua infância e meninice, com seus amores e amigos, com suas lutas políticas, com sua família, cuja ligação aparece forte no filme, além da sua insuperável ligação com Jacques Demy. Essa ligação é também um vínculo que ela estabelece entre a arte, a doença e a morte. Com extrema delicadeza, nos introduz nos sofrimentos da Aids e no declínio físico progressivo de Jacques Demy e uma vez mais nos emociona.

“As Praias de Agnès” é um filme de uma riqueza de imagens e sentimentos raramente alcançada em documentários ou autobiografias. É que Agnès Varda é uma mulher muito especial e admirável. Isso o espectador capta vendo esse seu filme desde os primeiros planos mostrados, de suas praias.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres


Tatiana Babadobulos

Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo). Estados Unidos, Suécia, Reino Unido e Alemanha, 2011. Direção: David Fincher. Roteiro: Steven Zaillian. Com: Daniel Craig, Rooney Mara e Christopher Plummer. 158 minutos.




“Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (“The Girl with the Dragon Tattoo”) é um livro, que já foi filmado na Suécia, em 2009, mas agora ganhou uma refilmagem, nos Estados Unidos. Com direção de David Fincher (“A Rede Social”, “Clube da Luta”, “O Curioso Caso de Benjamin Button”), o longa-metragem ganha movimento principalmente no início, tal como o filme que lhe rendeu indicação ao Oscar, no ano passado. Mas lá pelas tantas desacelera, mas não para em nenhum momento.

Isso porque o thriller de Stieg Larsson começa contando a história de Mikael Blomkvist (Daniel Craig), um jornalista econômico que é condenado na justiça por um crime contra a honra (difamação) de um homem poderoso na Suécia. No turbilhão da mídia, ele precisa tomar uma decisão, já que a editora para qual trabalha está prestes a fechar, principalmente por conta desse tal processo. É aí que a história muda seu rumo e começam a ser inseridos elementos motivantes, do ponto de vista cinematográfico, como assassinatos, corrupção, segredos de família e dramas pessoais de dois parceiros.

Quando o jornalista é contratado por um rico industrial sueco, Henrik Vanger (Christopher Plummer), para descobrir o paradeiro de sua sobrinha Harriet, que pode ter sido assassinada por um membro da própria família, ele resolve se mudar para uma ilha naqule país, a fim de investigar o tal caso. E, quando precisa de um parceiro para ajudar com “invasão de computador”, eis que é apresentado, pela mesma pessoa que o contratou, à Lisbeth (Rooney Mara), uma jovem de aparência estranha e que vive à custa do governo, por se mostrar incapaz (!).



A trama montada por Fincher é de tirar o fôlego, principalmente em duas sequências que envolvem abuso sexual e vingança. Verdadeiramente desconfortável ao espectador. O tempo inteiro é um mistério sendo resolvido atrás do outro e só acaba quando termina. Aliás, poderia ter terminado uns 15 minutos antes. Quando Fincher estica a trama, que renderia um novo filme, perde a mão e só chateia a plateia, principalmente por tocar em um assunto um tanto piegas, quando se trata de um filme forte demais: a desilusão amorosa.

“Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres” é daqueles filmes para assistir sem pestanejar, já se preparando para seguir as pistas e investigar, ao lado do protagonista, quem é o assassino. Desvendar o crime, aliás, é fácil demais. O importante é como  chegará lá, além de todo o trajeto percorrido pela garota para arrancar dinheiro do governo.

O longa-metragem, que estreia nesta sexta-feira, 27, nos cinemas, recebeu indicações ao Globo de Ouro 2012 nas categorias Melhor Atriz – Drama (Rooney Mara) e Melhor Trilha Sonora. Para o Oscar, o filme foi indicado também na categoria Atriz, além de Fotografia, e categorias técnicas: Montagem, Edição e Mixagem de Som.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

J.Edgar


Tatiana Babadobulos

J.Edgar. Estados Unidos, 2011. Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Dustin Lance Black. Com: Leonardo DiCaprio, Armie Hammer e Naomi Watts. 137 minutos.


Depois de contar sobre a vida dos jogadores de rúgbi na África do Sul e, mais precisamente, sobre o ex-presidente daquele país, Nelson Mandela (representado brilhantemente por Morgan Freeman), em “Invictus”, novamente Clint Eastwood mexe na seara política e conta, em “J. Edgar”, a história do homem mais poderoso nos Estados Unidos, que chefiou o FBI (Federal Bureau of Investigation) por quase 50 anos.

Para o papel de J. Edgar Hoover, foi escalado o ator Leonardo DiCaprio (“A Origem”), que utilizou maquiagem pesada e um tan­to artificial para retratar a passagem do tempo, além de uma voz rouca. Esta, aliás, não é a primeira vez que DiCaprio, que ficou conhecido por sua atuação em “Titanic”, retrata uma biografia no cinema. Isso porque, com direção de Martin Scorsese, fez o papel de Howard Hughes, em “O Aviador”. Tal como Hughes, que sofria de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), seu personagem também é cheio de manias, além de ser atrapalhado com as mulheres, covarde em excesso e homossexual enrustido.

Em uma das primeiras sequências do longa, durante o encontro com Helen (Naomi Watts, de “21 Gramas”), ele mostra a ela como implantou na biblioteca a localização de livros, que pode ser catalogado e achado em segundos, com a nova técnica. E compara a tal localização com a de pessoas. “Imagine se cada cidadão do país pudesse ser identificado de maneira única com o seu próprio cartão e número, digamos, com a impressão de seus dedos. Imagine a rapidez com que os acharíamos quando cometessem um crime.” Métodos, aliás, que são utilizados até hoje em ambos os setores.

Como era “atrapalhado” com mu­lheres, e percebeu que não iria se casar com uma, contratou a mo­ça que convidou para jantar co­mo sua secretária para a vida toda.

O filme, cujo roteiro é de autoria de Dustin Lance Black (também especialista em biografia política, já que é dele o roteiro de “Milk – A Voz da Igualdade”), conta a história das leis dos Estados Unidos e a influência do chefe do FBI nesta trajetória. Ao lado do parceiro Clyde Tolson (Armie Ham­mer, de “A Rede Social”), no Bureau e na vida, Hoover vai mostrar ao mundo como se faz justiça. Na verdade, como era medroso, só chegava para prender o ladrão depois que alguém (mais corajoso) já o havia feito, e aparecia para ganhar os créditos e dar entrevistas à imprensa. Desmascarado por um jovem (Clyde), tratou de contratá-lo e ser o seu amigo. Aliás, mais do que amigo. Prometeram, um ao outro, no primeiro dia, que almoçariam e jantariam juntos diariamente…

Outra pessoa que teve muita influência em sua vida foi a mãe, aqui vivida por Judi Dench (“Notas sobre um Escândalo”).



Como o arco da história contada por Eastwood vai dos anos 1920 aos 1970, quando Hoover está chegando ao final da sua vida e da sua carreira como diretor do FBI, a direção de arte faz o seu trabalho e reconstroi a cidade, utilizando obje­tos, automóveis, além do tom sóbrio da película para fazer o espectador voltar ao tempo. E, no vai e vem da história, que mistura quando Hoover iniciou o Bureau, aos 20 anos, até os dias em que começa a ditar suas memórias e a refletir sobre sua carreira, o espectador vai e volta no tempo de maneira deliciosa, sutil, sem cansar.

Ao mesmo tempo em que East­wood resolveu retratar um herói americano, cujos procedimentos realizados por ele mudaram o país e continuam relevantes até hoje, desmascara-o, mostrando que preferia a companhia de homens a mulheres, que era mimado pela mãe e, sim, um covarde, que ganhava os louros às custas do trabalho de seus colegas.

Eastwood não recebe nenhuma indicação ao Oscar desde “Cartas de Iwo Jima” (nas categorias Melhor Filme e Diretor), em 2006, ainda que depois disso tenha feito ótimos filmes, como “Gran Torino” e “Invictos”. Este ano, passou batido pelos membros da Academia, já que o anúncio feito no dia 24 mostrou que não foi indicado a nenhuma categoria. Tampouco DiCaprio, que não é apenas um rostinho bonito produzido por Hollywood. Mas quem liga para o Oscar, quando trata-se de um belo filme, dirigido por um dos melhores?