sexta-feira, 26 de junho de 2026

O CONVITE

         


 Antonio Carlos Egypto

 

 

O CONVITE (The Invite).  Estados Unidos, 2026.  Direção: Olivia Wilde.  Elenco: Olivia Wilde, Seth Rogen, Penélope Cruz, Edward Norton.  107 min.

 

A produção estadunidense “O Convite” aposta no inesperado, no choque que conversas cínicas, desinibidas e sem censura, podem causar.  Para isso, mescla comédia, drama com muita ironia e acaba por produzir uma suposta sessão de psicoterapia.  Qual o objetivo disso?  Ir do mais formal e engessado até a mais ampla demonstração de intimidade numa relação social fortuita.  Há muitos exageros nesse caminho, mas a rota é boa.  Pelo menos, instigante.

 

Tudo já começa de forma surpreendente.  Vemos uma mulher que já se preparou para receber seus vizinhos de apartamento do andar de cima, quando seu marido chega e aparentemente nada sabe sobre isso.  Na verdade, o casal está incomodado com esses vizinhos, por conta do barulho, do alvoroço que eles promovem madrugadas adentro, por uma prática sexual exibicionista, expressa por orgasmos explicitados sonoramente.

 

Trata-se, portanto, de um encontro estranho, que pretende o quê?  Discutir e resolver tal questão, aproximar os vizinhos, produzir camaradagem?  E os convidados por que aceitaram?  O que podem querer com eles?  Haverá um convite no ar, que justifica o título do filme.

 

Pois bem, mas essa comédia que vira drama psicológico vai procurando nos surpreender a cada instante.  Viradas comportamentais são frequentes.  O imprevisível está sempre lá.  O que nem por isso torna a comédia hilária ou empolgante.  Mas os elementos escondidos, as tensões acumuladas, os desentendidos vão aparecendo e mudando o clima. 

 


A comunicação evolui em diferentes sentidos, a intimidade torna-se o centro do encontro.  As frustrações aparecem.  A ansiedade se manifesta.  E o “modernismo” dos convidados se dissolve em algo mais humano.

 

Até então, a comédia se baseava em bobagens, como uma cuidadosa mesa preparada para alguém que não consome carne, glúten, açúcar, etc..  Ou de um marido que não comprou o esperado vinho porque nem se deu conta do que estava acontecendo, nem queria que acontecesse. 

 

Nem por isso o que vem depois, mais próximo da realidade psíquica das pessoas, alcança níveis bergmanianos de profundidade.  É querer demais, eu sei.  Também não se compara a um filme com um ponto de partida semelhante, como “Deus da Carnificina”, de Roman Polanski, de 2011.  Em todo caso, a tentativa vale.

 

A diretora Olivia Wilde, também atriz no filme, é ousada na temática, na linguagem, nos diálogos e na atuação.  Mérito indiscutível.  O elenco que ela reuniu em torno de si, maravilhoso.  Seth Rogen, em muito bom desempenho, e as estrelas Penélope Cruz, como sempre radiante na tela, e Edward Norton, com seu charme e talento, são uma grande atração do filme.




quarta-feira, 17 de junho de 2026

INFÂNCIA NO CINEMA

 

  Antonio Carlos Egypto

 

 

O BOLO DO PRESIDENTE (Mamlaket Al-Qasab).  Iraque, 2025.  Direção: Hasan Hadi.  Elenco: Baneen Ahmed Nayef, Sajad Mohamad Qasen, Waheed Thabet Khreibat, Rahin AlHaj.  102 min.

 

O Bolo do Presidente

UMA INFÂNCIA ALEMÃ (Umrum).  Alemanha, 2025.  Direção: Fatih Akin.  Elenco: Jasper Billerbeck, Laura Tonke, Detlev Buk, Luisa Hagmeister, Diane Kruger.  93 min.

 

Uma Infância Alemã

Dois filmes recentes, para adultos, com questões sérias, importantes, que envolvem aspectos políticos, sociais e econômicos são protagonizados por crianças, atores mirins.  Um deles já está em cartaz nos cinemas e passou na 49ª. Mostra Internacional de Cinema em São Paulo: “O Bolo do Presidente”, do Iraque, dirigido por Hasan Hadi, tem a atriz Baneen Ahmed Nayef, no papel de Lamia, de 9 anos de idade.  O outro filme, que entra em cartaz ainda neste mês de junho de 2026, é “Uma Infância Alemã”, produção alemã, dirigida por Fatih Akin, protagonizada por Jasper Billerbeck, que interpreta o menino Nanning, de 12 anos de idade.

 

Nos dois casos, os filmes giram em torno da criança protagonista, que é quem conduz a trama onde a história se desenvolve.  Claro que, entre um filme que se situa na Alemanha, nos dias finais da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e outro, que se situa no Iraque, nos anos 1990, há diferenças evidentes.  Porém, eles têm inúmeros pontos em comum.

 

Ambos se passam em locais dominados por regimes políticos autoritários, ditatoriais.  De um lado, Adolf Hitler, de outro, Sadam Hussein.  Ambos impõem seus valores de forma arbitrária, que não permite contestações e exigem sacrifícios de seu povo.

 

É por conta disso que Lamia, sorteada na escola por um professor, fica obrigada a fazer o bolo de aniversário do presidente e que a escola está também obrigada a festejar a data.  Assim, Lamia busca desesperadamente os ingredientes para fazer o bolo.  E por que isso é difícil?  Pela penúria da situação do Iraque e do eminente declínio de Hussein, que precisa das festas de aniversários recorrentes para encobrir o que não lhe interessa resolver, além de envolver o povo no assunto.  O filme se centra especialmente nessa luta insana de Lamia para cumprir essa obrigação absurda, nesse contexto social e político decadente.  Faltam os ingredientes, os preços são inalcançáveis para ela e sua família.  Há coisas que demandam muito trabalho para conseguir ou exigem uma tal criatividade para ser alcançada no tempo necessário que parece impossível a uma criança.  Mas ela nunca desiste.

 

Enquanto isso, Nanning, o garoto que vive na ilha de Umrum, na Alemanha, que vai perdendo a guerra, luta incessantemente para prover comida a sua família.  Preocupado especialmente com a mãe, que amargura a queda de Hitler e não quer comer nada a não ser pão branco, com manteiga e mel.  Uma exigência quase impossível naquela situação de absoluta carência e privação a que estavam submetidos.  Conseguir os ingredientes para esse lanche aparentemente frugal é uma batalha muito custosa, quase impossível.  Farinha de trigo não existe há tempos o açúcar, o mel e a manteiga, racionados.  Mas ele se sente obrigado a atender à necessidade materna a qualquer custo e não desiste, enquanto tenta por seus parcos meios entender a guerra e os conflitos que atingem sua pequena comunidade.

 

Impossível assistir a um filme sem lembrar do outro, pela similaridade da situação que sustenta a história.  E também pelos atores mirins que os protagonizam.  Ambos muito verdadeiros nos seus desempenhos.  Sem excessos, muito bem trabalhados.  Eu vi agora “Uma Infância Alemã” e tinha visto “O Bolo do Presidente” em outubro passado (não o revi agora).  Mas as tramas são mesmo muito similares, nem o tempo decorrido me fez deixar de notar isso.

 

Não é um demérito para nenhum dos filmes, que têm outros aspectos a destacar também.  Por exemplo, “O Bolo do Presidente” nos mostra o Iraque visto de dentro, pelos artistas do país, o que diferencia a visão que temos do contexto opressivo interno.  E nos acrescenta informações complementares importantes.

 

“Uma Infância Alemã” tem uma pegada mais artística, sequências cuidadosamente concebidas, ainda que nem sempre compondo um todo orgânico, mas muito bonitas de se apreciar.  Conta com uma fotografia reluzente e bela. 

 

Se as histórias são parecidas, a forma de contá-las é diferente.  Vale conferir.