sábado, 13 de junho de 2015

SAMBA


Antonio Carlos Egypto



SAMBA (Samba).  França, 2014.  Direção: Eric Toledano e Olivier Nakache.  Com Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim, Izia Higelin, Issaka Sawadogo.  118 min.


A história de um imigrante, do Mali ou do Senegal, fugitivo das guerras africanas, vivendo há dez anos em Paris, tentando obter seu visto de residência, sem conseguir, e sofrendo todo tipo de dificuldades para sobreviver, pode ser um bom mote para uma comédia?  A julgar pelos cineastas Eric Toledano e Olivier Nakache, sim.  Afinal, eles dirigiram “Os Intocáveis”, em 2011, que tratava de um tetraplégico e seu cuidador nesse tom e se deram bem.  O filme foi um sucesso.  Repetem a dose agora e com o mesmo ator, Omar Sy, muito bom, protagonista nos dois trabalhos.




Confesso que assisti a “Samba” um tanto incomodado.  Não porque o filme não funcionasse, mas por achar que a questão do imigrante clandestino, excluído, rejeitado, explorado, extremamente sofrido, sem conhecer os seus direitos e sem dominar os caminhos para se integrar, era algo dramático demais para o tom leve adotado pelo filme.  Também, porque as questões ficavam um tanto esvaziadas de sentido em algumas cenas engraçadas ou em algumas brincadeiras.  A questão social, as diferenças de classe, os problemas de identidade gerados pela clandestinidade e as revoltas, ficavam escamoteados.  Ao serem particularizados, perdiam sua real dimensão.

Também me incomodaram alguns clichês, como o argelino que se passava por brasileiro e falava algumas palavras em português para exibir sua desinibição, sua alegria, sua dança e, assim, ter mais chance de conquistar mulheres.  Ainda bem que algumas das músicas escolhidas para pontuar aparições dele traziam o talento de Gilberto Gil ou Jorge Benjor.  Mas o personagem Wilson (Tahar Rahim) é apenas uma caricatura carnavalizada de uma situação muito séria. O envolvimento de Samba (Omar Sy) e Alice (Charlotte Gainsbourg) carecia de aprofundamento e mostrava pouca consistência.  Enfim, o tom do filme não me satisfez.




Fui ler, então, o livro no qual se baseia o filme, também recém-lançado e com os atores na capa.  E a sensação foi de perplexidade. A autora de Samba, Delphine Coulin, é escritora e cineasta.  Fiquei imaginando que filme ela faria de seu próprio livro.  Com a certeza de que algo muito diferente teria que sair dali.  O livro é bem escrito e especialmente interessado em mostrar os sentimentos, as percepções, as expectativas, os desejos e os sonhos, tanto os de olhos abertos quanto os vividos sob a proteção de Morfeu.

A França, tradicionalmente associada ao acolhimento do estrangeiro e à democracia, é fortemente questionada nos relatos das ações legais, burocráticas e policiais, que envolvem os imigrantes.  O sofrimento é mostrado em detalhes, às vezes sujos, às vezes sórdidos, a dor é sempre presente e o respeito aos personagens oferece uma dimensão que está perdida no filme. 




Não se trata de comparar resultados: evidentemente, as linguagens literária e cinematográfica são coisas diferentes.  Só que a escritora, por ser também cineasta, tem uma escrita própria para adaptação ao cinema, ela descreve cenas inteiras que estão prontas para serem filmadas.  São fortes, dramáticas.  O tom é completamente outro.  Dá conta, de uma forma muito mais apropriada, da temática abordada.

A impressão que se tem é de que o filme “Samba” traiu a proposta da autora, quase invertendo o seu rumo.  A busca pelo êxito comercial tornou tudo um tanto pasteurizado e a seriedade do assunto submergiu.  Isso acontece apesar de o filme contar com um elenco de alta qualidade.  Não só pelo excelente desempenho de Omar Sy e também do de Tahar Rahim, mesmo com as armadilhas de seu personagem, mas também por contar ainda com Charlotte Gainsbourg, no papel de Alice, quase inexistente no livro, mas que adquire uma importância central no filme.  Enfim, todos os atores e atrizes estão muito bem.




A pergunta que fica é: tudo pode ser objeto de comédia?  Podemos admitir que sim, haja vista que Roberto Begnini em “A Vida é Bela”, de 1997, conseguiu fazer de um campo de concentração nazista uma brincadeira, e há muitos outros exemplos.  Ou seja, poder, pode.  Resta saber se é o mais apropriado.  Em muitos casos, creio que não é.

Rir da pobreza, da exclusão, da exploração do ser humano, de grupos que são discriminados ou perseguidos é possível.  Mas só admissível com profundo respeito aos retratados, para superar preconceitos e estereótipos.  Ou seja, com espírito libertador e não de exploração comercial ou para subjugar ainda mais os que já estão subjugados.

“Samba” é um dos destaques do Festival Varilux do Cinema Francês, que acontece todos os anos por aqui e alcança vários Estados brasileiros.  Após o Festival, os filmes começam a ser lançados em sessões normais nos cinemas.




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