Antonio Carlos Egypto
A SEPARAÇÃO (Jodaeiye Nader Az Simin). Irã, 2010. Roteiro e direção: Asgar Farhadi. Com Leila Hatami, Peyman Moadi, Sarina Farhadi. 123 min.
“A Separação”, como indica o título brasileiro, é um filme iraniano que trata da separação de um casal: Nader (Peyman Moadi) e Simin (Leila Hatami) e das consequências que isso traz para a vida, não só dos dois, da filha de 11 anos e do pai dele, idoso, com mal de Alzheimer, como também para a empregada diarista, que Nader contrata, seu marido e a filha pequena. As duas famílias acabarão num julgamento, que envolverá aspectos culturais, morais e religiosos. E incluirá ainda outras pessoas que se relacionaram, de algum modo, com as duas famílias. Um belo imbróglio, cheio de novidades e reviravoltas, de que um roteiro muito bem construído dá conta com talento.
A primeira cena já surpreende: diante de um juiz, o casal tenta explicar por que quer se divorciar. Ela quer ir ao exterior, ele, não. Alega que tem de cuidar do pai e não entende a importância dessa viagem, de apenas uma ou duas semanas. Nem nós, nem o juiz, que alega motivo fútil para o pedido.
Considerando-se, porém, que o Irã atual é um regime fechado e que é difícil obter autorização para sair do país, mesmo por um prazo máximo limitado a duas semanas, cujo efeito tem prazo de validade, entende-se a ansiedade de Simin. Em quarenta dias, suas chances de viajar se evaporam. Mas será que ela quer, mesmo, fazer uma curta viagem de turismo, visita a familiares ou algo do gênero (não é explicado isso na cena) ou ela pretende evadir-se, abandonar o país e, talvez, a própria família?
Isso é só o começo da trama, que tratará de inúmeras questões-problema do país e do regime, como quem não quer nada. Aparentemente, está apenas contando um melodrama familiar, sem conotações políticas. Nem poderia ser diferente, não passaria na censura e, muito menos, seria o indicado oficial do Irã ao Oscar de filme estrangeiro, como é o caso. O roteiro, porém, é brilhante, ao contrário dos censores oficiais que, pelo jeito, ficaram na superfície do assunto.
Um homem que se separa, trabalha, e tem um pai incapacitado aos seus cuidados, precisa de uma mulher para ajudá-lo, além de sua filha, pré-adolescente. Mas uma mulher casada, com filha, pode trabalhar na casa de um homem descasado, sem comprometer sua honra? E pode limpar um velho incapacitado sem cometer pecado?
Uma mulher pode deixar seu marido e filha e viver sua vida sem a reprovação social e religiosa? Um homem pode permitir que sua mulher grávida trabalhe na casa de outro homem sem o seu consentimento, mesmo necessitando muito do dinheiro que ela pode obter com esse trabalho, sem reagir? Terá razão se agredir o patrão que, supostamente, empurrou sua mulher para que saísse da casa? Pode-se tocar numa mulher grávida? Mas pode-se saber se ela está grávida ou não, se o corpo está todo encoberto e, com isso, uma gravidez pode ser disfarçada por um bom tempo?
Questões triviais? Absolutamente. Questões que mostram a relatividade dos valores morais, o sofrimento que uma leitura inflexível de princípios produz e a fragilidade das noções de mentira e de verdade.
Diante do Corão, só se pode jurar em nome da verdade. Mas qual é a verdade? Algo que se sabe pode ser esquecido num momento de raiva e descontrole. Como assim? A pessoa sabia ou não?
O que acontece é que as decisões morais são tomadas em circunstâncias concretas, que envolvem interesses, pessoas e situações sobre as quais não se tem muito controle. E a dúvida pode pairar soberana. Em alguns casos, nunca se poderá saber o que é verdadeiro ou não.
Essas reflexões são extremamente importantes e válidas, enquanto considerações éticas, universalmente. Aplicadas a um regime político como o do Irã, revelam que, sob o tacão autoritário e religioso, vive uma sociedade que pulsa sua contemporaneidade. Sufocada, mas pronta para vir à tona. Quem sabe, veremos em breve uma primavera persa?
Asgar Farhadi, que já dirigiu o muito competente “Procurando Elly”, em 2009, mostra que está à altura dos grandes cineastas iranianos, que se mudaram do país ou estão impedidos de trabalhar. Consegue criar uma obra instigante e profunda que, no entanto, exige uma leitura subliminar. Não se revela à primeira vista. Mexe no vespeiro, sem despertar suspeitas. Excelente. Faz lembrar a arte brasileira, especialmente a música, durante a nossa ditadura militar. Que criatividade impressionante era preciso ter para driblar a censura e o regime e, ademais, fustigá-lo. É o que faz Asgar Farhadi, nos dias de hoje no Irã, conquistando merecidos prêmios internacionais, além da indicação ao Oscar.
“A Separação” levou três Ursos no Festival de Berlim de 2011: dois de prata, para melhores ator e atriz, e o de ouro, de melhor filme, além do prêmio do júri ecumênico. Recebeu, ainda, o prêmio de melhor roteiro do American Film Institute (AFI), junto aos críticos de Los Angeles e Boston. Venceu o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira, além de outros 17 prêmios em festivais de cinema pelo mundo. Merece tudo isso, sem sombra de dúvida.



1 comentários:
Na sua aparente simplicidade de relatar um problema familiar, o filme, na realidade, é extremamente impactante e complexo nas filigranas dos acontecimentos. Como sempre, as análises do Egypto são minuciosas e esclarecedoras. Filme recomendável para todos os que gostam de Cinema com conteudo (ou recheio...), e que motivam discussões apos a seção.
FRANCISCO MONTEAGUDO
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