sexta-feira, 29 de julho de 2011

Capitão América: O Primeiro Vingador


Tatiana Babadobulos

Capitão América: O Primeiro Vingador (Captain America: The First Avenger). Direção: Joe Johnston. Roteiro: Christopher Markus e Ste­phen McFeel. Com: Chris Evans, Stanley Tucci, Sebastian Stan, Hayley Atwell, Tommy Lee Jones. Estados Unidos, 2011. 124 minutos.

Apresentado pela primeira vez em forma de história em quadrinhos, em 1941, ou seja, durante a Segunda Guerra Mundial, como propaganda política e para mostrar ao mundo que os norte-americanos não tinham medo de Adolf Hitler, Capitão América agora é protagonista do longa-metragem “Capitão América: O Primeiro Vingador” (“Captain America: The First Avenger”). O filme, dirigido por Joe Johnston (“O Lobisomem”) e com roteiro de Christopher Markus e Ste­phen McFeel (ambos de “Crônicas de Nárnia”), chega nesta sexta-feira, 29 de julho, aos ci­nemas.

E é justamente durante a Guerra que se passa a fita, ou seja, quando o país recrutava jovens para o exército, principalmente com a foto de Tio Sam – personificação do governo americano e do exército – apontando jovens e apelando para o patriotismo, com os dizeres: “I Want You” (“Eu Quero Você”).

O magricela Steve Rogers (Chris Evans, o Tocha Humana de “Quarteto Fantástico”) tem apenas 40 quilos, é baixinho, tem vários problemas de saúde, é indefeso e apanha nos becos da cidade onde vive (Nova York), mas não abre mão de ser mais uma opção ao governo norte-americano na luta contra a Alemanha e os seguidores de Hitler durante a Segunda Guerra. Depois de convencer Dr. Erskine (Stanley Tucci, de “Julie & Julia”), que mais tarde veio a ser o criador da fórmula do “supersoldado”, consegue entrar para o exército. O cientista, porém, o recrutou porque estava mais preocupado com o coração e com a sabedoria de Steve do que sua forma física.



 Além de ter um coração bom, era a amizade com outro soldado, Bucky Barnes (Sebastian Stan, de “Cisne Negro”). Afinal de contas, Bucky é quem Steve sempre quis ser. Embora ele tenha o apoio do cientista e, mais tarde, da bela Peggy Carter (Hayley Atwell, de “A Duquesa”), ele terá de driblar as desconfianças do coronel Chester Phillips (Tommy Lee Jones, de “On­de os Fracos Não Têm Vez”).

Juntos, e com ajuda de Howard Stark (Dominic Cooper, de “Educação”), futuro pai do Homem de Ferro, que vai desenvolver a parafernália ne­cessária para dar vida ao Ca­pitão América, terão de enfren­tar o Caveira Vermelha, também conhecido como Johann Schmidt (Hugo Weaving, de “Transformers: O Lado Oculto da Lua”).

Em “Capitão América”, o protagonista passa por uma grande transformação. Primeiro, detonam o garoto, mas como tem coração bom, foi escolhido para servir o exército. Ele sofre decepções e ainda assim opta por não ficar amargurado ou cansado disso. Mas o longa-metragem faz isso de propósito para mostrar a grande virada. E a música reforça quando ele cumpre sua primeira missão, mesmo que não tenha sido designado para salvar os colegas. O toque de humor é leve e o romance que começa a aparecer contrasta com o clima de rivalidade e guerra da história.



Como se trata de um filme sobre super-heróis, os efeitos especiais estão ali para servir (os retoques digitais são feitos para deixar o garoto magricela, por exemplo), assim como as cenas espetaculares fora da realidade, mas que são divertidas de se ver. E a jornada do herói está toda lá mostrando a superação e a conquista que não é em causa própria, mas do país, da nação.

Outro ponto positivo são as câmeras bem posicionadas, que oferece ao público nitidez sobre quem está batendo e quem está apanhando. E, mais uma vez, a música não cessa nem quando os tiros correm soltos durante as batalhas.

Capitão América foi o primeiro do grupo a ser recrutado para o “clube” que mais tarde ficou conhecido como “Os Vingadores” e que reúne super-heróis como Thor, Hulk, Homem de Ferro, Viúva Negra, Gavião Arqueiro, e foi feito em resposta à Liga da Justiça, da DC Comics, cujo “cabeça” é Super-Homem. O longa-metragem sobre esse grupo, aliás, está marcado para estrear em 2012.

“Capitão América” é um longa divertido, com um roteiro bem escrito e que pode ser visto para quem costuma ler os quadrinhos ou até mesmo para quem não sabe da história. É o filme-pipoca com cópias em versões 2D e 3D. Por falar no de três dimensões, esqueça: é totalmente dispensável.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Assalto ao Banco Central


Tatiana Babadobulos

Assalto ao Banco Central. Brasil, 2011. Direção: Marcos Paulo. Roteiro: Renê Belmonte. Com: Eriberto Leão, Giulia Gam, Lima Duarte, Mi­lhem Cortaz, Hermila Guedes. 101 minutos.

Baseado em um dos maiores assaltos a banco do mundo, o longa-metragem “Assalto ao Banco Central” mostra como aconteceu o incidente, em agosto de 2005, no Banco Central do Brasil, em Fortaleza. A fita apresenta toda a ope­ração em volta do crime que debitou R$ 164 milhões do banco sem dar um tiro nem disparar um alarme.

Ainda que seja uma obra de ficção, ou seja, não conta a história exatamente como aconteceu, o longa tenta mostrar como foi todo o planejamento, já que foi gasto muito dinheiro para a operação se concretizar. Para tanto, os bandidos alugaram uma casa perto do local e co­meçaram a cavar o túnel até chegar ao cofre do banco e, enfim, pegar o dinheiro que estava reservado para ser queimado. Na fachada da casa alugada, placa de empresa (fictícia) que comercializava grama sintética.

A fita vai mostrando a esca­vação, o quão profissional foi toda a operação, assim como foi bem feita a instalação do túnel, com ar-condicionado.

O longa mostra também desde a pessoa que pensou no pla­no, passando pela que o financiou, até as responsáveis por exe­cutar a operação. Entre os personagens, além do mandan­te, que tem o apelido de Barão (Mi­lhem Cortaz, de “Tropa de Elite”), há o Mineiro, vivido por Eriberto Leão (o Pedro, de “Insensato Coração”), que acaba de sair da prisão, quando já é envolvido na empreitada. Carla (Hermila Guedes) é a única mulher do bando e namorada de Barão.

Também fazem parte da trupe Doutor (Tonico Pereira), engenheiro e comunista, que embora não tenha ficha criminal tal como os outros, está ali para dar o suporte profissional que precisam para cavar o buraco. Em uma das passagens mais engraçadas da trama, ele diz que pretende fazer uma leve divisão de rendas, mas é encontrado tomando o vinho Romanée-Conti, em Paris!

Ao seu lado, estão Tatu (Gero Camilo), o especialista em túneis; Léo (Heitor Martinez), ex-policial expulso da corporação quando se envolveu com um esquema nada lícito; Devanildo (Vinicius de Oliveira), irmão de Carla, e que está lá porque precisa de um emprego mas, a princípio, não sabe o que estão fazendo lá, a não ser vendendo grama sintética, entre outros envolvidos.

Um dos diferenciais entre a trama e a realidade é que na opera­ção foram envolvidos mais de 40 pessoas, enquanto na ficção, são menos de 10, afinal de contas ficaria inviável transferir com fidelidade para a tela.



Do outro lado, ou seja, do lado da polícia, estão o delegado titular, Amorim (Lima Duarte), e sua assistente, Telma (Giulia Gam). Além de ter de desvendar o cri­me, os dois convivem com as di­ferenças de gerações dentro da corporação, é quando ele mostra que está acostumado à investigação nos modos antigos, já que prendeu bandidos famosos em São Paulo, como Sete Dedos, Promessinha, Bandido da Luz Vermelha. Enquanto ela se prende à tecnologia, à informática, aos estudos etc. Como ele mesmo diz em uma das passagens, está acostumado com pessoas, a entender o ser humano.

Ainda que as cenas se passem em Fortaleza, em nenhum momento é dito isso, a não ser duas sequências filmadas na Ponte Metálica e nas dunas, além do  mapa que indica a praia de Iracema. Mas a praia de Iracema, convenhamos, não é Ipanema.

Com roteiro de Renê Belmonte e direção de Marcos Paulo, em sua estreia no cinema, embora tenha mais de 40 anos de expe­riência em direção na televisão, “Assalto ao Banco Central” deixa a desejar quando não explora o fato que, por si só, é cinematográfico, e busca o humor para contrapor. Talvez esse toque engraçado tenha lá as suas vantagens, e tem, pois é capaz de suavizar o drama e fazer a plateia gargalhar. No entanto, falta um pouco do suspense e da dramaticidade propostos inicialmente.

O suspense, aliás, é imediatamente colocado de lado quando optam por contar a história de modo não-linear, ou seja, quando mostram ao mesmo tempo o depoimento dos envolvidos com as cenas acontecendo. Ainda que o espectador não saiba o que aconteceu na vida real, ele já fica sabendo o final da história antes mesmo de ela acontecer. Opção que tira o impacto da história e não surpreende.

CONTRA O TEMPO

Antonio Carlos Egypto

CONTRA O TEMPO (Source code). Estados Unidos, 2011. Direção: Duncan Jones. Com Jake Gyllenhall, Michelle Monaghan, Vera Farmiga. 93 min.


“Contra o Tempo” conta uma história fantástica, na forma de um filme que mescla aventura, suspense e ação. Imagine assumir uma vida que não é a sua, num corpo que não é o seu, e, ainda por cima, voltando no tempo. Mas cuidado, não se trata de um retorno nostálgico a um passado distante, nem de assumir uma identidade glamourosa de alguma celebridade. Nada disso. É algo bem mais concreto e prático, com limites muito estreitos, até.

Imagine que você possa viver uma outra vida num outro corpo, porém, o tempo que você tem para isso são apenas os últimos oito minutos de vida dessa outra pessoa, dessa outra identidade. Esse é o chamado código fonte. Qual a utilidade dele? Ao retornar por oito minutos antes que uma bomba venha a explodir num trem, será possível pesquisar sobre o terrorista e a bomba, de modo a evitar outros atos terroristas no futuro. Com a vantagem de que é possível voltar mais de uma vez e outra mais, se for preciso. Eu não disse que era uma coisa concreta e prática? Poderia acrescentar: e com objetivos louváveis.

Pois é a partir dessa premissa que decorre toda a trama de “Contra o Tempo”, que lida com questões que certamente preocupam as pessoas, cada vez mais, em todo o mundo. Afinal, as possibilidades de um ataque terrorista ocorrer a qualquer momento deixa o mundo inseguro para todos. Até nos lugares mais insuspeitados isso pode acontecer. Haja vista o recente massacre que ceifou quase 80 vidas na aparentemente tranquila e pacífica Noruega. Anticomunistas,islamofóbicos e neonazistas, como o atirador loiro nórdico, são figuras assustadoras em seu desequilíbrio pessoal e ideologia delirante. Mas não são os únicos a meter medo nos dias de hoje.

Um recurso como o imaginado pelo filme para impedir a livre circulação desses malucos que destróem vidas preciosas seria muito bem-vindo. A pretensão de controlar o incontrolável também é um delírio, mas imaginar a sua possibilidade alivia os medos, consola e pode funcionar como diversão, além da oportunidade de utilizar os efeitos especiais tão caros ao cinema hollywoodiano.


Quem vir o filme perceberá também que há uma outra questão ideológica embutida nessa trama. É que as mortes de soldados em países invadidos pelos norte-americanos, como o Afeganistão e o Iraque, podem não ter sido em vão e ainda servirem a um objetivo patriótico. Aí, sim, é que se consolam as culpas, que tudo fica bem.

Que o cinema norte-americano é muito eficiente ao propagar os valores e a ideologia que lhe interessam em cada momento histórico já está mais do que provado. Que o cinema de Hollywood é competente para produzir emoções fortes e filmes de ação sedutores também ninguém duvida. E que são fitas bem produzidas, facilmente assimiláveis pelo público, também é algo notório. Bons atores e atrizes não faltam e desempenhos convincentes fazem da fantasia algo verossímil.

“Contra o Tempo” tem todos esses ingredientes. Certamente não é um grande filme, mas funciona como diversão de boa qualidade.

terça-feira, 19 de julho de 2011

LOLA

Antonio Carlos Egypto

LOLA (Lola). Filipinas, 2009. Direção: Brillante Mendonza. Com Anita Linda, Rustica Carpio, Tanya Gomez. 110 min.
Brillante Mendonza é um conceituado diretor filipino, já bastante conhecido e respeitado no circuito dos festivais internacionais de cinema, onde amealhou prêmios importantes. Aqui, seus filmes foram exibidos em sessões especiais e mostras, mas nunca chegaram ao circuito comercial. Isso acontece agora, com a entrada da Lume Filmes na distribuição de filmes para cinema. A Lume tem marcado uma significativa e importante presença na distribuição de filmes em DVD, resgatando filmografias pouco conhecidas e fitas marcantes da história do cinema. O seu primeiro lançamento em cinema é “Lola”, de Brillante Mendonza. Ótimo começo.

As primeiras imagens de “Lola” mostram uma senhora idosa com uma criança, num dia de chuva e vento, sem conseguir controlar o guarda-chuva, em busca de um lugar para acender uma vela. Esse lugar foi onde seu neto acabou de ser assassinado.


A avó é Lola Sepa (Anita Linda) e seu périplo ao longo do filme será para promover um funeral digno para o neto morto e buscar justiça. Ela e sua família são pobres, não dispõem de recursos, nem para as despesas do enterro, nem para abrir um processo legal contra o assassino. Sua casa está na água, lembrando as nossas palafitas, o único acesso é por barco, os espaços são mínimos. Mas, eventualmente, se podem pescar bons peixes dentro de casa mesmo. Há uma ótima cena mostrando isso.

Enquanto Lola Sepa, a avó do assassinado, busca ajuda na comunidade e até num empréstimo bancário, para viabilizar o funeral do neto assassinado, vamos conhecendo também Lola Puring (Rustica Carpio), a avó de Mateo, o assassino.

Mateo está preso e sua avó procura cuidar dele, levando-lhe comida na prisão, e está empenhadíssima em tirar o neto da cadeia. Mas não tem dinheiro suficiente para pagar a fiança, nem contratar advogado. Dependerá da defensoria pública. A família de Lola Puring vende legumes na rua, mas não tem registro para essa atividade e pode ter suas mercadorias apreendidas a qualquer momento. Ela faz de tudo para juntar dinheiro, visita parentes no interior e vende as mercadorias que ganha, empenha a única TV da casa, rouba no troco de um freguês e por aí a coisa caminha.

As duas avós, as duas Lolas, conduzem o filme, mostrando os dois lados desse assassinato banal: seu motivo foi o roubo de um celular. A vida das duas Lolas revela as agruras da pobreza e os dilemas morais que se colocarão a partir dessa carência. E, também, a fragilidade da justiça, quando o dinheiro não está presente. E, ainda, ao que pode conduzir toda essa debilidade social e institucional. A forma como o dilema das duas avós se resolve é muito bem construída, ao longo de toda a película, e saímos do cinema tendo muito o que pensar, a partir daquilo que vimos e do final tão eloquente que Brillante Mendonza nos reservou. É um cineasta de inegável talento, com grande sensibilidade para tratar de questões sociais, sem cair na obviedade ou no panfleto.

O fato de a história nos ser mostrada por meio das duas avós Lola é outro trunfo do filme. São mulheres idosas, mas fortes e determinadas, vividas por atrizes experimentadas, que nos levam a compartilhar suas histórias com absoluto realismo. O desempenho de Anita Linda merece destaque: sua Lola Sepa flui de uma forma tão natural e verdadeira, que emociona. Tudo é muito sutil e bem trabalhado nos personagens dessas avós-coragem.

“Lola” foi premiado como melhor filme nos Festivais de Cinema de Dubai e Miami, recebeu indicações de filme, direção e montagem, no Asian Film Awards, competiu no Festival de Veneza e em mais 20 Festivais Internacionais.

Vamos esperar que venham outros filmes de Brillante Mendonza, como “Kinatay”, de 2009, e “Serbis”, de 2008, para o circuito comercial. Seria uma forma de um público maior conhecer o cinema das Filipinas e esse grande cineasta da atualidade.

LOUP – UMA AMIZADE PARA SEMPRE

Antonio Carlos Egypto


“Loup – Uma Amizade Para Sempre” foi o título escolhido para a estreia nos cinemas do filme de Nicolas Varnier, chamado simplesmente “Loup” ou “Lobo”, quando de sua exibição no Festival Varilux de Cinema Francês.

A crítica desse filme, aqui no cinema com recheio, pode ser encontrada entre as postagens de junho de 2011, sob o título “Lobo”.

domingo, 17 de julho de 2011

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2

Tatiana Babadobulos

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows - Part 2). Reino Unido e Estados Unidos, 2011. Direção: David Yates. Roteiro: Steve Kloves. Com: Daniel Radclif, Emma Watson e Rupert Grint. 130 minutos.

Acabou. Agora não tem mais jeito. Sete livros e oito filmes depois, chegou ao fim a saga do bruxinho Harry Potter. Isso porque estreia nesta sexta-feira, 15 de julho, nos cinemas do mun­do todo, a parte que faltava para a finalização da obra escrita por J.K. Rowling, que começou em 2001.

“Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2” (“Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2”) conta, finalmente, o que aconteceu com Harry (Daniel Radcliffe) e os seus dois amigos, Rony Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson), já que os três não estudam mais na escola de magia de How­garts, mas precisam resolver o problema deixado pelo professor Alvo Dumbledore (Michael Gambon), antes de sua morte. A missão dos garotos, aliás, tem a ver com a morte de Lorde Voldemort (Ralph Fiennes), o que vai gerar, como está sendo aguardada desde o início da série, a ba­talha final.

Apresentado nas versões 2D e 3D, inclusive em Imax, o longa-metragem novamente é dirigido por David Yates, que vem comandando a série desde o nú­mero 5, “Harry Potter e a Ordem da Fê­nix”. E, há de se dizer, funciona muito bem.

Diferentemente da primeira parte, quando foi necessário estender demais na aventura e extrapolar nos efeitos especiais, o final vai ao que realmente inte­ressa, sem enrolação, e entrega à plateia aquilo que promete: uma história fiel à obra da inglesa Rowling, com a magia neces­sá­ria e o 3D contribui para que o espectador participe do filme. É como se fosse possível entrar na história juntamente com os nossos heróis.

A Parte 2 começa a partir do ponto onde termina a Parte 1 – um roubo que terá repercussão ao longo da fita. O roubo, aliás, tem a ver com a Varinha das Varinhas que, junto com a Pedra da Ressurreição e com a Capa da Invisibilidade, formam as Relí­quias da Morte. Juntas, as três peças dão ao seu portador o do­mínio sobre a morte. Enquanto o Lorde das Trevas corre atrás da varinha, Harry tenta encontrar as três Horcruxes, já que precisa destruí-las para tirar a imortalidade de Você-sabe-quem. Então, Harry pede ajuda a um dos duen­des, já que precisa ir ao Banco de Gringotes.

As cenas que retratam o banco são bastante originais, trazem de volta a magia da série e, de fato, colocam o espectador dentro do filme durante o percurso que inclui a viagem em uma espécie de montanha russa. E a forma épica aparece quando os três amigos partem de lá com a ajuda de um dragão nada do mal, ao contrário, com aspecto bastante benevolente.



A fita é menos sombria do que costumava ser nos filmes anterio­res e a turma está mais unida do que nunca, já que o diretor da escola agora é Severo Snape (Alan Rickman), o mesmo responsável pela mor­te de Dumbledore. A cena em que aparece na escola é uma das mais emocionantes, já que a tímida professora Minerva McGonagall (Maggie Smith) mostra do que realmente é capaz para defender os seus interesses e assegurar a vida dos alunos. Destaque também para o momento em que todos os alunos, com exceção dos da Sonserina, resolvem ajudar Harry em mais uma busca.

Neste filme, são as batalhas, os ataques e até mesmo as mor­tes que prevalecem. Entretanto, há alguns atos que ficam subentendidos, ótima saída para não chocar demais, por exemplo, quando a cobra Nagini ataca um dos personagens e só mostra a sua sombra.

O longa-metragem traz novidades com relação ao amor entre os adolescentes (e os beijos dos casais formados), o amor da fa­mília, impresso desde a morte da mãe de Harry, até a cena na qual a mãe de Gina (Bonnie Wright), senhora  Weasley (Julie Walters), a defende de Belatriz Lestrange (Helena Bonham Carter), e também o amadurecimento de ou­tros personagens, como Neville Longbottom (Matthew Lewis), que sempre teve a covardia como principal característica.

Por falar em amadurecimento, os fãs podem observar com bastante nitidez o crescimento dos atores nos dois sentidos, já que eles começaram com cerca de 10 anos de idade e agora já têm média de 20 anos. E no sentido profissional.

“Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2” fecha com chave-de-ouro uma das franquias de filmes mais rentáveis da história do cinema. E a certeza que é possível aliar bons filmes com histórias de magia e aventura sem ficar piegas.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cilada.com


  Tatiana Babadobulos



Cilada.com. Brasil, 2011. Direção: José Alvarenga Jr. Roteiro: Bruno Mazzeo, Rosana Ferrão. Com: Bruno Mazzeo, Fernanda Paes Leme, Serjão Loroza, Marcos Caruso, Augusto Madeira, Fulvio Stefanini, Thelmo Fernandes, Carol Castro, Fabiula Nascimento, Dani Calabresa. 90 minutos.

Depois de terminar o namoro por conta de uma traição pública, Bruno (Bruno Mazzeo) é alvo da vingança da namorada, Fernanda (Fernanda Paes Leme). E é justamente essa vingança que vai resultar o verdadeiro enredo do longa-metragem “Cilada.com”.

Isso porque ela resolve colocar um vídeo do ex-namorado na internet em uma situação constrangedora. Mas o problema maior é que ele mexe com a virilidade masculina, com a sua vaidade, já que ele sofre de ejaculação precoce. Porém, o vídeo se espalha com uma velocidade incrível, como é comum quando se fala da rede mundial de computadores, e Bruno pensa em um jeito de como reverter essa situação, já que caiu em uma cilada. Na ânsia de tentar consertar a sua reputação, Bruno só aumenta o problema.

E é justamente a partir da ideia que recebe do amigo Sandro (Augusto Madeira), que o filme se alimenta e surgem algumas piadas. Trata-se de uma comédia, mas também com um toque de  romance. O problema é que muitas vezes a piada não funciona, é forçada, sem graça e chega ao ponto da grosseria, principalmente por conta da escatologia, de algumas serem até preconceituosas. Outro ponto negativo são as cenas previsíveis: é chato para o espectador adivinhar o que será mostrado na sequência.







O filme é baseado na série de televisão “Cilada”, lançada em 2005 pelo canal a cabo Multishow. Bruno Mazzeo também atua como roteirista do longa-metragem, que tem direção de José Alvarenga Jr. ("Divã"). O diretor, que não trabalhou como diretor no seriado, conta que, para levar o seriado da televisão para o cinema, foi necessário pegar “o que tinha de bacana no seriado e ampliar para o cinema”. “Achava que o seriado tinha uma carga emocional que não era explorada no cinema”, completa. Outra questão é que, segundo Alvarenga, no cinema é possível dizer mais coisas que na TV. “O cinema permite o que não é possível explorar na televisão. O cinema é uma escolha, a pessoa está lá para ver o filme; a televisão chega na casa da pessoa.”

Há problemas também com a direção de arte, como o banheiro diferente em duas ocasiões, e até de referências, como as moças que tomam cerveja direto da garrafa em uma festa de casamento.

“Cilada.com” mostra o poder da internet e o limite cada vez menor entre o privado e o público. Em muitas cenas, o filme não funciona, diferentemente do seriado, principalmente por falta de timing de comédia e por estender demais determinados assuntos, que talvez funcionasse se fosse mais rápido. Uma pena.

 Mesmo que o filme tenha acabado de estrear, a produção é otimista. Já tem a sequência do filme confirmada. “Só falta a história”, arremata Bruno.

domingo, 10 de julho de 2011

OUTUBRO

Antonio Carlos Egypto

OUTUBRO (Octubre). Peru, 2010. Direção: Daniel Vega e Diego Vega. Com Bruno Odar, Gabriela Velasquez, Carlos Gasols. 83 min.


O protagonista de “Outubro” é Clemente (Bruno Odar), cuja profissão seria prestamista. É isso que é falado no espanhol original do filme e mantido nas legendas em português. Prestamista não é expressão usual hoje em dia. Remete, por exemplo, à letra de um grande samba de Noel Rosa, de 1932, “Coisas Nossas”:

“... Baleiro, jornaleiro,
Motorneiro, condutor e passageiro,
Prestamista e vigarista.
E o bonde, que parece uma carroça,
Coisa nossa, muito nossa!...”

E, pelo jeito, não é só coisa nossa daquela época, mas do Peru até os dias de hoje.

Prestamista é o cidadão que empresa dinheiro a juros. No caso, ao povo mais simples, do qual ele também faz parte. Agiota, pequeno explorador dos humildes. Já os bancos são os grandes. Bem, voltemos ao filme.

Clemente é uma figura tímida, solitária, alguém que leva uma vidinha nada invejável. Logo no início da película, se vê que uma refeição para ele pode se resumir a um ovo cozido e um pedaço de pão. Ele mora numa casa velha, descuidada, que revela pobreza. Guarda seu dinheiro, e eventuais relógios e joias dados como garantia de empréstimo, logo abaixo do forno defeituoso de um fogão em péssimo estado.

Sua relação com os clientes é dura, sem afeto nenhum e sem envolvimento com o drama dos endividados. Lembra o papel de Selton Mello em “O Cheiro do Ralo”, mas levado de um modo mais seco. Não há parentes, amigos ou mulheres de uma relação afetiva verdadeira. Seu hábito é frequentar prostitutas em lugares também sujos e decadentes. De uma delas vem a bomba: um bebê deixado numa cesta em sua casa, para ele cuidar. E a prostituta sumiu. Basta uma ou duas cenas para que se possa ver que ele não é capaz de cuidar de uma criança.

Sofia (Gabriela Velasquez), vizinha de Clemente, é devota do culto de Nosso Senhor dos Milagres, que acontece em outubro. E o milagre parece estar para acontecer: acaba sobrando para ela a tarefa de cuidar do bebê e, com isso, a possibilidade de fisgar o prestamista e melhorar de vida.

O filme vai acompanhando a procura da mãe prostituta, o empenho de Sofia, a relação que se estabelece e todo o entorno social que cerca essas figuras, que vivem em busca de um teto e de comida, em que o agiota é um sobrevivente ligeiramente melhor sucedido. Apenas isso.

A realidade aqui apontada por meio da vida e do relacionamento dos personagens que vão aparecendo ao longo do filme é inequívoca. As imagens e os comportamentos dizem tudo. A desesperança está no ar. Mas não há discursos ou teorias a expor. Tudo parece estar já determinado.

Até as tentativas de entrada de algum afeto na história são canhestras ou mal sucedidas. Cada um tenta sobreviver como pode, o que inclui alguma malandragem ou roubo entre eles, mas que incomoda, porque estão todos tão desgraçados que essas coisas só agravam ainda mais o quadro.

Não há surpresa nesse tipo de retrato, nem na proposta de uma estética da fome, em que os lugares estão todos desmoronando junto com os próprios personagens, falta respiro, as cores são esmaecidas, tudo é sério, estranho, às vezes, mas sem humor. É um cinema feito para incomodar e que leva isso a sério. Demais, talvez.

“Outubro” fará parte do 6º Festival Latino-americano de São Paulo, de 12 a 17 de julho de 2011, em vários cinemas e nas salas da Cinemateca Brasileira, um espaço que precisa ser mais conhecido e melhor aproveitado pela população paulistana. Em seguida a essa participação no Festival, o filme está previsto para ser lançado no circuito comercial.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

CORAÇÕES PERDIDOS

Antonio Carlos Egypto

CORAÇÕES PERDIDOS (Welcome to the Rileys). Estados Unidos, 2009. Direção: Jake Scott. Com James Gandolfini, Melissa Leo, Kristen Stewart. 110 min.

“Corações Perdidos”, título mais apropriado para uma novela de TV do que para o filme, refere-se a uma produção norte-americana de pretensões modestas e que procura tratar de uma questão de relacionamento humano complicada: a que envolve culpa e morte.

Doug (James Gandolfini) e Lois (Melissa Leo) estão casados há quase 30 anos, com uma vida estável e rotineira, que acabou sofrendo um grande abalo quando a filha adolescente morreu num acidente automobilístico.

Lois, a mãe, se sente culpada pelo que aconteceu, porque, de alguma forma, participou daquilo. E desde então não sai mais de casa. A reclusão foi a sua saída e a tal ponto a vida perdeu o sentido que ela até já providenciou lápides para si e para o marido. Tudo pronto para a hora em que morrerem. Parece que é só isso o que ela espera da vida, agora.

Doug, o pai, é um bem-sucedido homem de negócios, mas que também se sente muito infeliz com a perda e com o que sucede no seu casamento e na sua vida. Busca algum consolo em contatos com outras mulheres, inclusive strippers, sem que o desejo sexual seja a mola propulsora desses contatos.

Será justamente ao conhecer uma jovem stripper que se prostitui – Mallory é um dos seus muitos nomes – em New Orleans, para onde foi, em função de um congresso, que ele irá virar sua vida de cima para baixo. New Orleans é mostrada em seu lado pobre, o avesso do charme dos espetáculos que costuma caracterizar a cidade.

O personagem da prostituta, que teria 16 anos, é vivido por Kristen Stewart, que está bem no papel formando com o casal maduro, um trio de ator e atrizes talentosos.

As questões existenciais que a morte coloca vão mover os personagens bem de vida, enquanto a sobrevivência mais elementar move a jovem garota de programas. Ela fala de suas práticas sexuais com uma desenvoltura e uma tal familiaridade que transforma o olhar de Doug e depois, também, o de Lois.

Eles projetarão nela a filha perdida e, na forma como isso se dá e se resolve, o filme patina um pouco e perde densidade. A trama poderia ter trabalhado melhor a complexidade da situação. Simplificou-se o relacionamento do trio e o desfecho, apesar de um tanto previsível, não convence. O que não significa, claro, que o filme não tenha nada a dizer ou que não se preste a reflexões interessantes.

É uma fita mediana, com um tema importante e expressivo desempenho de seus protagonistas, dirigida ao público adulto. O que a diferencia da maior parte da produção hollywoodiana atual, que procura dialogar com crianças, adolescentes e jovens adultos.

domingo, 3 de julho de 2011

ESTRANHOS NORMAIS

Antonio Carlos Egypto

ESTRANHOS NORMAIS (Happy Family).  Itália, 2010.  Direção: Gabriele Salvatores.  Com Fabio de Luigi, Fabrizio Bentivoglio, Margherita Bay, Diego Abatatantuono, Carla Signori, Gianmaria Biancuzzi, Alice Croci.  90 min.

Um escritor cria uma história que deve servir como roteiro de um filme.  Um filme de arte, de autor, não um filme qualquer.  Ele vai nos narrando o seu propósito.  Seu nome: Ezio (Fabio de Luigi).

Passa-se à apresentação dos personagens da história.  E aí cada personagem se apresenta por si mesmo, diretamente para nós, para a câmera.  Alguns mais elaborados, outros, confusos, sem saber como se apresentar.  Assim como qualquer pessoa, eles têm dificuldade de dizer quem são, o que lhes acontece, quais as suas intenções e o seu futuro.  Até porque ainda não sabem o que lhes reservará a escrita do roteirista.

Ficamos conhecendo o casal Vincenzo (Fabrizio Bentivoglio) e Anna (Margherita Bay) e a mãe de Vincenzo, a nona, que adora cozinhar e tem Alzheimer.  Vincenzo tem uma filha ruiva, de 27 anos, que vive às turras com seu cheiro.  Anna é mãe de Felippo (Gianmaria Biancuzzi), um garoto que todos entendem ser muito particular.  Aos 16 anos, é todo intelectualizado e está decidido a casar-se dentro de um mês.  A escolhida é Marta (Alice Croci), dispostíssima a fazer o que quer e isso inclui o tal casamento, também aos 16 anos dela.

Vincenzo e Anna vão receber os pais de Marta, vividos por Diego Abatatantuono e Carla Signori, para um jantar com vistas a se conhecerem e conversarem sobre o insólito casamento.  Os pais de Marta são estranhos o suficiente para que a excentricidade da situação se complete.  Ah! Mas Anna convidou Ezio, o escritor, para estar presente, depois de uma trombada que vivenciaram juntos na rua.  Ele não só comparece ao jantar como fica muito à vontade.  Afinal, como autor, ele conhece esses personagens.  E assim vão se construindo situações sempre dinâmicas, bem humoradas e com diálogos inteligentes.

Os personagens procuram influir na trama, encontram seus próprios caminhos, buscam convencer o autor a ir para onde querem que ele vá.  Mas ele interage e reage: não quer saber dessas influências e sabe que o poder é dele.  Sim, ma non troppo, a criatura interfere na criação, queira o autor ou não.

Um escritor contemporâneo pode, entretanto, optar por uma obra aberta, sem fechar ou solucionar as questões tratadas.  Mas, nesse caso, terá de enfrentar o desafio de conviver para sempre com seus personagens dentro de casa. Quem aguenta uma confusão dessas!

Essa matéria-prima de que se compõe “Estranhos Normais” está muito bem trabalhada no filme de Gabriele Salvatores. Embora sobrem alguns fios soltos, a obra tem grande fluência, capacidade de comunicação com a plateia e arranca boas risadas do público.

A ficção que interage com a realidade assume aqui um tom irônico, que se dirige ao próprio filme.  Por exemplo: “Estranhos Normais” tem uma trilha sonora de Simon & Garfunkel.  Por quê?  Porque este foi o único disco que sobrou na casa de Ezio, depois que ele se separou da mulher.  Hoje quase ninguém mais ouve Simon & Garfunkel, mas foi o que restou.  E, na verdade, é uma boa trilha que depois incluirá Chopin, já que um dos personagens se revelará uma pianista de concerto.

Ecos de Pirandello e os personagens à procura do autor, “Rosa Púrpura do Cairo”, de Woody Allen, boas inspirações que valorizam a eficácia da proposta do filme de Salvatores, que tem um clima que poderíamos classificar de ultracontemporâneo, na falta de melhor nome.  Toda diversidade cabe, tudo pode ser possível, moralismos já não têm lugar e os acertos e erros de cada personagem – e do autor – têm suas consequências.  Mas, afinal, cada um sabe de si.  E é sempre possível reconstruir a vida.  Embora a gente passe toda a vida cheio de medos, todos os tipos de medo.

O roteirista nos informa que seu filme, considerando todos os medos que tem, só poderia ser sobre o medo.  Na verdade, “Estranhos Normais” acaba sendo sobre o único medo que realmente conta: o medo da morte.  Esse, realmente, insuperável.  Mas talvez seja possível mitigá-lo, contorná-lo por planos que incluem uma volta ao mundo.  E, sobretudo, sem negar a dor, vivê-lo sem grandes dramas.

O elenco de “Estranhos Normais” é bastante homogêneo e muito bom.  Todos conseguem dar credibilidade a seus estranhos personagens, sem exceção.  Gabriele Salvatores é o mesmo diretor de “Mediterrâneo”, que em 1992 ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, uma fita que tem também um clima muito peculiar e envolvente.