segunda-feira, 25 de maio de 2009

OS FALSÁRIOS



Antonio Carlos Egypto


OS FALSÁRIOS (Die Fälscher). Áustria, 2007. Direção: Stefan Ruzowitzky.
Com: Karl Markovics, Augusto Diehl, Devid Striesow e Martin Brambach. 98 min.


O nazismo e o holocausto parecem um tema absolutamente inesgotável, tantos e tão variados filmes já foram feitos sobre o assunto, assim como toneladas de coisas foram escritas, que a sensação que a gente poderia ter é de que não há mais nada a dizer, documental ou ficcionalmente, que já não tenha sido dito.

No cinema, a guerra, e o holocausto em particular, chegam a se constituir num gênero, com a previsibilidade de personagens e situações que costumam caracterizar os gêneros cinematográficos. No entanto, parece que há sempre algo de novo ou original, ou pelo menos algum ângulo novo que ainda merece ser mostrado. Filmes como “O Leitor” e “O menino do pijama listrado” são exemplos de tramas criativas e que abordam o tema do holocausto sob aspectos incomuns, e justificam plenamente a sua existência como películas capazes de estimular o nosso espírito crítico e a nossa sensibilidade. Já a refacção de “Operação Valquíria” é um exemplo frágil da abordagem do assunto, sem acrescentar nada de novo,

Chega até nós, agora “Os Falsários”, filme austríaco de 2007 que venceu o Oscar de Filme Estrangeiro do ano. E novamente um aspecto inusitado, mas relevante do período nazista na Segunda Guerra Mundial, aparece. A história de um falsificador de dinheiro, judeu, que acaba num campo de concentração e lá concorda em participar de uma operação de falsificação que pretendia financiar esforços de guerra nazistas, além de minar as economias dos aliados. Isto em troca de ter sua vida preservada, além do acesso a alguns confortos inimagináveis naquelas circunstâncias, como camas com colchões macios.

A “Operação Bernhard”, como foi chamada a verdadeira oficina de falsificação montada com a ajuda de prisioneiros selecionados de outros campos para compor uma equipe técnica e tecnologicamente evoluída, sob o comando do personagem central Salomon Sorowitsch (Karl Markovics), é uma coisa espantosa, difícil de conceber, naquele momento e naquele lugar.

A história é muito boa, não importando até onde ela é fiel aos fatos reais que a teriam inspirado. Como ela coloca uma questão limite, dá margem a muitos questionamentos éticos. Por exemplo: Como posso me sentir protegido e tranquilo, quando tudo à minha volta é horror e morte? Até onde vale a pena colaborar para salvar a vida? Até onde se pode ir para preservar a própria vida? Qual o limite que, se ultrapassado, já não valeria mais a pena viver? O que pode ser heróico numa situação dessas? Ou como se sustenta uma postura de enfrentamento heróico, como a mostrada em um dos personagens? Nesse sentido, as questões que podemos nos colocar a partir do que o filme traz ultrapassam o contexto concreto em que estão inseridas.

A trama, porém, nos coloca novamente em contato com o nazismo e o holocausto. Não será um assunto muito batido, já esgotado? Vejamos o que diz o diretor Stefan Ruzowitzky, respondendo à questão: “Você tem um interesse especial pela Era Nazista?

A resposta: “Quando você vive num país como a Áustria, onde os partidos de direita FPÖ e BZÖ, com a sua aproximação intolerável com a ideologia nazista, que constantemente conseguem abocanhar 20% dos votos e ainda têm o direito de participar da administração do governo do país, o que já seria intolerável – você simplesmente tem necessidades urgentes de confrontar esses assuntos agora e sempre”.

Claro, é por aí mesmo. Que tudo isto tenha existido e possa voltar a existir, por mais remota que seja essa chance, credencia essa filmografia séria que trata do assunto. E que ele continue a ser abordado, para que ninguém possa se esquecer desses horrores. E, pelo jeito, ainda haverá muita trama criativa a ser engendrada a partir de tudo isso que a humanidade não deveria ter vivido, mas, infelizmente, viveu.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

BUDAPESTE, O LIVRO E O FILME

Antonio Carlos Egypto





Quando li o romance “Budapeste”, de Chico Buarque, admirei muito sua escrita e o intrigante jogo do ser e não ser do escritor / ghost-writer. Encontrar-se e perder-se entre as mulheres, enfrentando o desconhecido, muito bem representado pelo húngaro, “a única língua que o diabo respeita”, é o drama do nosso protagonista, o José Costa, que em Budapeste vira Zsoze Kósta. A admiração pelo idioma húngaro, com seus desafios e sonoridade surpreendentes, encontra eco no amor ao idioma português, ofício do escritor e por meio do qual o ghost-writer vive sua experiência anônima. Ele a viverá também em húngaro. É, portanto, um livro sobre a dualidade da experiência e da vivência da língua e de sua cultura.

A Budapeste, onde desembarca o personagem, é também dual – é mistério, imaginação e realidade que se apresentam. Para o autor Chico Buarque, o mistério prosseguiria, era uma cidade que ele não conhecia até escrever o romance, embora tivesse colhido informações e imagens sobre ela. Era, portanto, uma Budapeste etérea aquela que o personagem experimenta ao longo do livro. O que é real ou imaginado se confunde todo o tempo, na realidade da mente do personagem.

Já no filme “Budapeste”, dirigido por Walter Carvalho, com base no livro de Chico Buarque, ainda que a fotografia possa produzir imagens mais indefinidas ou enevoadas, é na Budapeste real que estamos e tudo o que se passa tem existência física: as casas, os interiores, os amores, a chuva. É inevitável, portanto, que uma parte do clima sempre intrigante do livro se perca no filme. E a tentativa de pôr na tela a interação desejo/fato acaba deixando a trama um tanto truncada.

Trata-se, porém, de uma bela produção que envolveu Brasil, Hungria e Portugal, com um elenco que tem Leonardo Medeiros, Giovanna Antonelli, Paola Oliveira e a bela atriz húngara Gabriela Hãmori, com direito a uma ponta até do próprio Chico Buarque.

O filme é bonito, elegante, e Leonardo Medeiros deixa em aberto a figura do protagonista, ele é difuso, disperso e indefinido, o que se coaduna com a trama desenvolvida. As mulheres que povoam seu universo estão bem representadas no filme e o embate/encanto do encontro das culturas também está satisfatoriamente apresentado. De modo que o resultado, se não chega a impactar, como faz o livro, tem seus méritos.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Anjos e Demônios

Carolina do Couto Rosa

Mais uma vez, a união de Dan Brown e Ron Howard dá o que falar no mundo cinematográfico. Depois de "O Código Da Vinci", filme que levantou suspeitas sobre Maria Madalena ter uma filha com Jesus Cristo, chega agora "Anjos e Demônios" ao cinema e provoca a Igreja católica em uma fascinante historia sobre ciência e religião.

Tom Hanks é novamente o protagonista da historia fazendo o professor Dr. Robert Langdon e se torna o responsável em salvar os cardeais sequestrados e evitar que o fanático da seita dos Iluminati bombardeie toda a cidade do Vaticano.

A Igreja recusou o filme antes mesmo de ele estrear no cinema e não facilitou em nada a produção do mesmo. As cenas não foram rodadas no Vaticano e em nenhuma Igreja de Roma. Conseguiram permissão, apenas por poucas horas, para gravar em frente a uma Igreja na Piazza del Popolo, onde no dia da filmagem estava acontecendo um casamento. Tom Hanks, muito simpático, conseguiu liberar a passagem para a noiva levando-a até a porta da igreja. As pessoas em volta aplaudiram e Tom Hanks se mostrou divertido e brincalhão em meio a tantos conflitos nas filmagens de "Anjos e Demônios". Este acontecimento não deixa de ser uma cena típica de filmes Hollywoodianos.

Falando da adaptação dos livros, Ron Howard consegue com este filme melhor resultado que em "O Código Da Vinci". No filme anterior, a história era recheada de detalhes, fazendo do livro muito mais interessante que o filme, que não consegue esclarecer todos os mistérios e deixa o espectador perdido diante de tanta informação. Já em "Anjos e Demônios" o resultado é excelente, tanto livro quanto filme conseguem prender o espectador e fazê-lo sofrer com o suspense da trama.

Um bom entretenimento, que diverte e distrai.

terça-feira, 19 de maio de 2009

SIMONAL, O DOCUMENTÁRIO



Antonio Carlos Egypto

SIMONAL, NINGUÉM SABE O DURO QUE DEI. Brasil, 2008. Direção: Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. Documentário. 84 min.

Wilson Simonal foi um dos maiores cantores de toda a história da música popular brasileira. Quem viveu e acompanhou com atenção os anos 1960/70 sabe muito bem do que eu estou falando. E sabe que não há nenhum exagero na frase anterior.

Poucas vezes se viu um intérprete que era um verdadeiro músico cantando, assim como uma colega daqueles tempos, a fantástica Elis Regina. Simonal tinha uma musicalidade fora do comum e um estilo de cantar inconfundível, moleque, pilantra, como ele mesmo chamava. Era “o rei do swing”, que mobilizava verdadeiras multidões para cantar com ele. Multidões que ele regia como se fosse um grande coral. Fazia tudo isso com boas músicas, porém, mais despretensiosas do que a maioria do que se produzia naquele período em que a MPB resistia ao regime militar de todas as formas que podia. Antes desse período, Simonal já brilhava com suas divisões originais, cantando bossa-nova em clubes, boates e teatros. Ele fazia o que queria com a voz e com a música.

Seus discos vendiam muito e ele chegava a fazer tantos shows por ano que praticamente ocupava todos os dias do calendário. Um talento indiscutível e um sucesso que rivalizava até com Roberto Carlos não é coisa que se possa esquecer facilmente. No entanto, Simonal morreu para a história, nas quase duas décadas em que viveu após todo esse êxito. Como é possível?

Convencido de que seu contador o roubava e essa seria a razão para os problemas econômicos que estavam surpreendentemente acontecendo, procurou intimidá-lo e forçá-lo a uma confissão, depois que este entrou com um processo contra o cantor, já que havia sido demitido sumariamente. Para isso, se valeu de pessoas que seqüestraram e levaram o contador até as dependências do DOPS, a polícia política do regime militar, onde ele apanhou e foi torturado. Como se não bastasse, Simonal, na época, declarou à imprensa que era mesmo amigo dos homens do poder. Talvez para mostrar que ele podia fazer tudo aquilo, quem sabe?

O momento era de radicalização política e a maioria da classe artística, assim como a maioria da imprensa, lutavam contra a ditadura e pelo restabelecimento da democracia no país, com os recursos de que dispunham, apesar da censura.

Era intolerável que Wilson Simonal convivesse ou tivesse amigos justo no DOPS. Acusado de dedo-duro (o que nunca foi provado), seu trabalho foi boicotado e varrido da própria história da música popular brasileira.
Simonal era mascarado, arrogante, pretensioso, mas, pelo jeito, era também muito ingênuo e desinformado, para se comportar dessa maneira, sem avaliar onde estava se metendo. O fato é que sua carreira artística desapareceu e só agora se procura reavaliá-la e reinseri-la na história, trinta e seis anos após o ocorrido.

O documentário “Simonal, ninguém sabe o duro que dei” busca resgatar essa história e esses dois momentos da vida de Simonal: o sucesso absoluto e o ostracismo total. Para isso, buscou imagens da famosa época dos festivais e dos programas de auditório da TV Record, que divulgavam a MPB de alta qualidade que então se fazia. Por sinal, um desses programas era comandado por Simonal.

Ouviu, pela primeira vez, o contador objeto de toda essa história e a turma do Pasquim – Ziraldo e Jaguar – que foi inflexível com Simonal, à época. Obteve ainda depoimentos de pessoas importantes com muita coisa a dizer sobre o cantor, como Nelson Motta, Miele, Chico Anysio, Pelé, Ricardo Cravo Albin, Toni Tornado e, naturalmente, seus filhos, também artistas, Simoninha e Max de Castro.

As conclusões, é claro, ficam por conta de cada um. Mas é positiva a retomada desses fatos e, principalmente, se faz mesmo necessário o resgate da obra artística de Wilson Simonal, que não pode ser varrida da história, independentemente da personalidade, do caráter, dos erros ou crimes cometidos pela pessoa. Radicalizando isso: já imaginaram se o mundo resolvesse apagar o trabalho de Frank Sinatra, na história da música popular, porque ele tinha ligações com a máfia?

segunda-feira, 11 de maio de 2009

DESEJO E PERIGO


 Antonio Carlos Egypto

Desejo e perigo (Lust, Caution) – China, Taiwan. Hong Kong, EUA, 2007.
Direção: Ang Lee. Com Tony Leung, Wei Tang, Joan Chen e Lee-Hom Wang. 157 min.

Segunda Guerra Mundial, 1941. A cidade de Xangai está nas mãos dos japoneses, que integram o Eixo, com a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini. Há um governo chinês colaboracionista e, naturalmente, se organizam as forças de resistência.

De um grupo teatral sai uma célula de resistência que vai atacar colaboracionistas importantes. A atriz Wong Chia Chi (Wei Tang) viverá o papel da elegante senhora Mai Tai Tai para se infiltrar nas hostes inimigas. Isso dá ensejo a uma dupla e talentosa representação da jovem Wei Tang, que brilha no filme. Tanto quanto o já veterano Tony Leung (conhecido principalmente pelos filmes de Wong Kar Wai), no papel do Sr. Yee, um político com alto posto no governo colaboracionista chinês junto aos japoneses.

Uma história de desejo, amor e traição será vivida por eles. Parece banal? Aparentemente sim, mas não é. A trama evolui, gerando muitos lances surpreendentes, questões éticas, enquanto se mostram os modos de vida, comportamentos e valores, em meio a uma cuidadosa reconstituição de época. O filme envolve e encanta, enquanto a trama nos prende, e o tempo passa sem que se perceba. A agilidade da filmagem que, sem jogar areia nos olhos do espectador, mostra, sob os mais variados ângulos, climas e cores, o que se passa no interior dos personagens e no seu contexto externo. A sutileza das interpretações vai revelando os sentimentos e as ambiguidades, sem deixar de alimentar expectativas e segredos até o final da película.

Eu destacaria, em especial, uma cena: a do assassinato de um colaboracionista que descobre o que não poderia. Ali se mostra como uma morte não é uma coisa simples, nem fácil de acontecer. Não se morre facilmente, não basta uma facada, nem duas. Não estamos no terreno dos tiros certeiros que matavam índios às dúzias, como nos westerns tradicionais. Essa cena de “Desejo e perigo” nos remete a uma outra famosa cena de Hitchcock, em “Cortina rasgada”, quando uma morte demora a se consumar, com direito a cabeça metida em forno quente. Há também cenas de sexo muito belas, tomadas alternadamente por todos os planos e ângulos, percorrendo todo o ambiente onde se dá o relacionamento sexual, revelando o algo mais que existia ali, para além do planejado ou esperado.

Ang Lee, depois dos êxitos de “O segredo de Brokeback Mountain” e “O tigre e o dragão”, se volta para as suas origens chinesas para revisitar a história, valendo-se de um conto tão belo quanto cheio de dor e crueldade, de Eileen Chang. O resultado é cinema de qualidade e que deve obter boa comunicação com a platéia brasileira, além de trazer algumas informações que ajudam a esclarecer o lado oriental da Segunda Grande Guerra, menos conhecido por aqui.

A versatilidade do diretor é notável. Basta lembrar alguns de seus primeiros filmes, como “Comer, beber e viver” ou “Banquete de casamento”, que focalizam aspectos culturais da China (Hong Kong e Taiwan), dialogando com o mundo ocidental, até o já citado “Brokeback Mountain”, um faroeste gay bem norte-americano ou o tipicamente inglês “Razão e sensibilidade” ou ainda o drama intimista “Tempestade de gelo” , em contraste com o espadachim de “O tigre e o dragão”, para perceber que Ang Lee se move com desenvoltura pelos mais diversos universos cinematográficos. E, geralmente, se sai muito bem, como é o caso desse “Desejo e perigo”.